{"id":6569,"date":"2025-08-06T11:00:00","date_gmt":"2025-08-06T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonunderworld.org\/?p=6569"},"modified":"2025-08-06T12:03:45","modified_gmt":"2025-08-06T15:03:45","slug":"tudo-pelo-ouro-migracao-e-violencia-na-fronteira-brasil-colombia-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonunderworld.org\/pt-br\/tudo-pelo-ouro-migracao-e-violencia-na-fronteira-brasil-colombia-venezuela\/","title":{"rendered":"Tudo pelo ouro: migra\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia na fronteira Brasil-Col\u00f4mbia-Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"791\" src=\"https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-1024x791.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6828\" srcset=\"https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-1024x791.jpg 1024w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-300x232.jpg 300w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-768x594.jpg 768w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-1536x1187.jpg 1536w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-2048x1583.jpg 2048w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-1200x927.jpg 1200w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_1_PT-100-1-2-150x116.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Durante a madrugada de 3 de agosto, no rio Pimich\u00edn, um afluente do rio Negro localizado pr\u00f3ximo ao munic\u00edpio de Maroa, na Amaz\u00f4nia venezuelana, homens do grupo armado colombiano Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN) atacaram membros da Frente Acacio Medina da Segunda Marquetalia (SM), uma dissid\u00eancia das antigas For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1ras da Col\u00f4mbia (Farc), numa manobra para anular a lideran\u00e7a do grupo. Houve mortos e feridos, de ambos os lados, embora o n\u00famero exato n\u00e3o tenha sido confirmado at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Os dois grupos compartilhavam o controle territorial da \u00e1rea de fronteira entre a Col\u00f4mbia e a Venezuela, mas a busca pelo dom\u00ednio total rompeu esse pacto, um acordo baseado em dividir os garimpos, compartilhar as rotas de tr\u00e1fico de drogas e dividir os lucros. Agora, de acordo com os l\u00edderes ind\u00edgenas locais, o acesso e o tr\u00e2nsito por essa \u00e1rea s\u00e3o controlados e proibidos pelo ELN como a nova autoridade exclusiva. Os moradores locais est\u00e3o ainda mais acuados e pode ocorrer um deslocamento em massa para In\u00edrida, a capital do departamento de Guain\u00eda, no Sudeste da Col\u00f4mbia. As fontes relataram ontem movimenta\u00e7\u00f5es dos grupos em territ\u00f3rios ind\u00edgenas, o que poderia marcar o in\u00edcio de uma nova onda de viol\u00eancia na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Essa not\u00edcia e a incerteza de suas consequ\u00eancias se espalharam rapidamente pelas cidades vizinhas, rio acima e rio abaixo, entre as comunidades cujo destino est\u00e1 atrelado ao dom\u00ednio da viol\u00eancia armada.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">MORTE EM BUSCA DO BRILHO<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algumas semanas, barcos da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), dezenas de soldados e v\u00e1rios drones vigiam o rio Cunucunuma, na Amaz\u00f4nia venezuelana, sobre o leito de um rio cheio de pedras que os Yekuanas consideram sagradas. Estamos falando de granito e outras forma\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o de ouro, um metal macio in\u00fatil em sua cultura. Fora do universo Yekuana, entre os garimpeiros mesti\u00e7os, esse desinteresse se transforma em uma ansiedade que dribla a persegui\u00e7\u00e3o, a extors\u00e3o e a morte em busca do cobi\u00e7ado amarelo brilhante.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"AU SHORT DOC - Donde el oro vale m\u00e1s que la vida\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SAYmwYebff0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Dairo Pertuz*, 41 anos, 13 de minera\u00e7\u00e3o, estava escondido nas margens do Cunucunuma h\u00e1 dez dias, ligando seu telefone por apenas alguns minutos para escapar dos drones, enquanto sua balsa, uma estrutura de 200 milh\u00f5es de pesos colombianos (quase R$ 270 mil) que perfura o leito do rio, permanecia enterrada desmontada. &#8220;Eles dizem que essa opera\u00e7\u00e3o vai durar 40 dias. Temos que esperar para poder trabalhar&#8221;, escreveu Dairo pelo WhatsApp.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A GNB volta l\u00e1 de tempos em tempos, mas os garimpeiros est\u00e3o acostumados. &#8220;Desmontamos as balsas, escondemos as pe\u00e7as e nos deslocamos entre as bocas do rio. Mudamos de lugar todos os dias, at\u00e9 eles irem embora&#8221;. Dairo mora em I\u00f1\u00edrida, no Sudeste da Col\u00f4mbia, mas passa meses em Cunucunuma procurando ouro. Da sua casa, ele viaja tr\u00eas dias de barco, passando por v\u00e1rios ped\u00e1gios impostos pelos povos ind\u00edgenas \u00e0queles que exploram a selva. At\u00e9 a semana passada, antes do conflito, quando ele chegava \u00e0 mina no rio, tinha que pagar 25 gramas de ouro por m\u00eas ao ELN e \u00e0 Frente Acacio Medina da Segunda Marquetalia (SM), um grupo liderado por Iv\u00e1n M\u00e1rquez, negociador-chefe das antigas Farc no Acordo de Paz de 2016, que mais tarde desertou do acordo. Aliados at\u00e9 a semana passada, os dois grupos agora est\u00e3o lutando pelo controle da fronteira. Mas \u00e9 improv\u00e1vel que isso gere alguma vantagem para Dairo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Dairo tamb\u00e9m precisa comprar \u00e1gua, comida e muito combust\u00edvel para o motor da draga. Em seguida, o lucro \u00e9 dividido: 40% para os mergulhadores e 60% para o propriet\u00e1rio da balsa, que precisa investir em avarias e pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o. Os garimpeiros gastam uma fortuna em sua opera\u00e7\u00e3o, mas t\u00eam um bom retorno, a cerca de US$ 100 por grama de ouro. &#8220;Conseguimos pelo menos 20 ou 30 gramas de ouro em um dia, e isso j\u00e1 \u00e9 lucrativo. \u00c0s vezes conseguimos 200, 400. Uma vez conseguimos 930 gramas em dez horas de trabalho&#8221;, lembra Dairo. \u00c9 uma vida perigosa, mas em terra firme as op\u00e7\u00f5es s\u00e3o restritas. De acordo com o Departamento Administrativo Nacional de Estat\u00edstica (Dane) da Col\u00f4mbia, o desemprego no departamento de Guain\u00eda \u00e9 de 13,6%, e metade dos jovens n\u00e3o estuda nem trabalha.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Dairo escapou dessa situa\u00e7\u00e3o e foi procurar ouro no rio I\u00f1\u00edrida, no Atabapo e em muitos outros lugares. Agora, ele emprega at\u00e9 12 pessoas em sua balsa, mas h\u00e1 alguns anos teve que come\u00e7ar tudo de novo quando a marinha colombiana tocou fogo em sua balsa. &#8220;Eles queimam cinco, mas dias depois tem dez novas&#8221;, disse ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rias minas j\u00e1 tiveram seu auge, e outras certamente vir\u00e3o. Mas atualmente Cunucunuma \u00e9 o local que atrai mais interesse na regi\u00e3o do Alto Orinoco: at\u00e9 200 balsas em produ\u00e7\u00e3o permanente, calcula Dairo. Cunucunuma fica na Venezuela, mas sua influ\u00eancia chega at\u00e9 a Col\u00f4mbia e o Brasil, onde irriga a economia de muitas comunidades por meio de uma art\u00e9ria comum: o vasto e sinuoso rio Negro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">UM POVOADO FANTASMA<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Em San Carlos de R\u00edo Negro, a segunda maior cidade da Amaz\u00f4nia venezuelana, havia um aeroporto com voos di\u00e1rios; um hospital que atendia moradores locais e de povoados vizinhos; duas escolas para crian\u00e7as daqui e de comunidades ind\u00edgenas pr\u00f3ximas; sete tanques que forneciam gasolina barata para os tr\u00eas pa\u00edses; uma casa de cultura onde as pessoas se reuniam para as festas do santo padroeiro; uma antena que fornecia telefonia para o lado colombiano; uma pequena frota mercante com grandes canoas; e v\u00e1rias lojas onde eram vendidos os alimentos que chegavam da capital do estado, Puerto Ayacucho, por via fluvial.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>San Carlos era o maior povoado da regi\u00e3o. Tr\u00eas mil pessoas viviam aqui nos bons velhos tempos, mas a fal\u00eancia da Venezuela deixou apenas 800 e a transformou em uma cidade fantasma. &#8220;Muitos jovens foram para as minas, e o restante foi para o Brasil&#8221;, disse Daniel Abreu nas ru\u00ednas de seu neg\u00f3cio. Onde antes havia uma mercearia bem abastecida, hoje um forno industrial e uma amassadeira fora de uso est\u00e3o em ru\u00ednas, ao lado de duas vitrines que exibem biscoitos com nomes de marcas em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfd1xFPPKVhRLBHF7KgfXDJ1qLCoTfIerX3S4RlWpiNLy4liPdeB5POKQcLgINYbeJMYUi-yOY7zfUYvWUVgriO3uhQaGRxvIg0D_v7yYtu1XSGMvfATb7VujlPQP0FKR6CMefmaw?key=5nCJPqrDkkt54M3md0v1CA\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Um antigo posto de gasolina em San Carlos, que tamb\u00e9m abastecia ve\u00edculos da Col\u00f4mbia e do Brasil. Hoje, est\u00e1 abandonado e seus sete tanques est\u00e3o enferrujados. Foto: Sinar Alvarado.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia, n\u00e3o havia quase ningu\u00e9m em San Carlos: duas senhoras vendiam apostas do jogo do bicho local; uma menina se protegia do sol com seu guarda-chuva; dois homens de moto vendiam um porco cortado em peda\u00e7os; outros cinco esperavam em frente \u00e0 casa do prefeito; e dois militares da Guarda Nacional que, ao passar, provocaram o sil\u00eancio cauteloso de Daniel. Quando se afastaram, o comerciante, um ind\u00edgena mesti\u00e7o Bar\u00e9, retomou a conversa e disse que a infraestrutura da cidade havia sido constru\u00edda em uma democracia, antes de a Venezuela falir.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo isso, sua loja ainda est\u00e1 bem localizada em frente \u00e0 Plaza Bol\u00edvar, uma \u00e1rea verde com grandes \u00e1rvores no centro de San Carlos. Do outro lado da rua, na diagonal, fica o cais, onde Daniel costumava chegar com sua canoa carregada de comida e bebidas alco\u00f3licas trazidas de uma viagem de sete dias pelo rio. &#8220;T\u00ednhamos que pagar 4% ao ELN, mas sobrava dinheiro&#8221;, lembra ele. Naquela manh\u00e3, s\u00f3 navegavam ali os chamados \u2018pequepeques\u2019: canoas com motores muito pequenos, que cruzam passageiros at\u00e9 a cidade de San Felipe, na margem colombiana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a energia em San Carlos \u00e9 intermitente, e a gasolina parou de chegar de Puerto Ayacucho no ano passado. Agora, essa comunidade importa gasolina cara do Brasil em barcos de 20.000 litros. Daniel tinha um semelhante, mas hoje ele est\u00e1 enferrujando na vegeta\u00e7\u00e3o rasteira ao lado do p\u00e1tio de sua casa. Ele subiu na proa como se o barco ainda navegasse.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cDas pessoas que conheci quando cheguei h\u00e1 25 anos, s\u00f3 meus vizinhos continuam aqui. Os outros morreram ou foram embora. At\u00e9 os cachorros foram embora: n\u00e3o havia comida pra gente, muito menos para eles\u201d.<\/p>\n<cite>Daniel Abreu, 61 anos, comerciante.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Mas Daniel nunca pensou em ir embora. &#8220;Quem for jovem, que v\u00e1&#8221;, disse ele. E alguns est\u00e3o fazendo isso. &#8220;Eles v\u00e3o para as minas aqui perto: Siapa, Moya, Cunucunuma, Camello, Carioca. Agora mesmo, v\u00e1rios deles est\u00e3o esperando o final de uma opera\u00e7\u00e3o da Guardia para ir para l\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Embora a riqueza do ouro flua em solo venezuelano, os lucros n\u00e3o s\u00e3o vistos em cidades como San Carlos porque as fam\u00edlias benefici\u00e1rias cruzaram a fronteira h\u00e1 muito tempo. At\u00e9 a guerrilha foi embora: aqui o ELN usava os jovens como informantes e carregadores. N\u00e3o mais. Entre os poucos retardat\u00e1rios, ainda h\u00e1 v\u00e1rios que tamb\u00e9m querem ir embora, mas n\u00e3o t\u00eam recursos. Para alguns, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 a morte: houve v\u00e1rios suic\u00eddios aqui nos \u00faltimos anos. No p\u00e1tio de sua casa, um pouco desanimado, Abreu arriscou uma tese: &#8220;Pra evitar a realidade, pra n\u00e3o sofrer o que est\u00e1 acontecendo, eles se matam&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">UMA BANDEIRA DA AMAZ\u00d4NIA<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfg5oGAcYPuj1X6FPtEk1TsKopunt7eygYUfM_q05g2095MMgkPKoSe3BaIwDt30L6q4W5KXjKe0RPkrVBTjNIFdAX2eCAHFeWtewSn3tge3Zn1Q9unAdx8bSYfKl8IRi-rMS5UYA?key=5nCJPqrDkkt54M3md0v1CA\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista do Rio Negro, entre San Felipe e Puerto Colombia. Foto: Sinar Alvarado.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Navegar por horas e dias nessas \u00e1guas exige conciliar o esplendor e a monotonia do rio, a vegeta\u00e7\u00e3o e o c\u00e9u aberto em ambas as margens: tr\u00eas faixas horizontais que correm paralelas por centenas de quil\u00f4metros. Essa poderia ser uma bandeira da Amaz\u00f4nia: abaixo, a faixa escura da superf\u00edcie, que sustenta o barco e permite a viagem; acima, a faixa verde de \u00e1rvores densas; e acima, a faixa azul, iluminada pelo sol como uma grande l\u00e2mpada incombust\u00edvel. Enquanto naveg\u00e1vamos em uma pesada canoa de metal, comunidades ind\u00edgenas que foram abandonadas nos \u00faltimos anos surgiam no lado venezuelano do rio.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A 130 quil\u00f4metros de San Carlos e San Felipe, em Puerto Colombia, nos reunimos dentro de casa para evitar os homens armados dos dissidentes das Farc, que \u00e0s 19h circulavam livremente pelo povoado. No p\u00e1tio de uma casa, v\u00e1rios ind\u00edgenas curipacos compartilham uma sopa de peixe com pimenta e mandioca enquanto conversam em seu idioma em ritmo acelerado, at\u00e9 que mudam para o espanhol para explicar suas necessidades urgentes. Gilberto El\u00edas*, propriet\u00e1rio de uma loja, \u00e9 o primeiro a falar: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a aqui. Os grupos armados querem viver na comunidade. Eles costumavam fazer seus neg\u00f3cios na mata; agora eles patrulham aqui com armas e nos colocam em risco. Amanh\u00e3 outros vir\u00e3o e nos acusar\u00e3o de sermos colaboradores&#8221;, diz ele, com os l\u00e1bios apertados.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Nessa localidade, 70 pessoas vivem em casas de madeira em uma margem alta do rio, localizada a 186 quil\u00f4metros de barco de I\u00f1\u00edrida. Essa costumava ser uma rota \u00fatil para viajantes e comerciantes que transportavam mercadorias: 30 quil\u00f4metros por um atalho irregular pelo territ\u00f3rio venezuelano encurtavam a viagem at\u00e9 Maroa, uma cidade em frente a Puerto Colombia, do outro lado do rio. Mas a Guarda Nacional, dizem os moradores de ambos os lados do rio sob estrito anonimato, come\u00e7ou a extorquir e a deter os viajantes, e o tr\u00e1fego parou. Agora, a \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00e9 viajar tr\u00eas dias ou mais, sempre em solo colombiano, por uma \u00e1rea chamada Huesitos, onde a carga passa por riachos e lama\u00e7ais em tratores para conectar o rio In\u00edrida ao Negro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Em sil\u00eancio durante a reuni\u00e3o, Mariela*, outra comerciante ind\u00edgena, finalmente se manifesta: &#8220;Por que tenho que compartilhar os frutos do meu trabalho com essas pessoas? At\u00e9 o conflito desta semana, o grupo Acacio Medina cobrava uma taxa de quem lucrava em Puerto Colombia, assim como os homens do ELN acampados em uma fazenda vizinha. Os grupos chegaram at\u00e9 a conviver juntos por certos per\u00edodos na cidade. Entretanto, como os eventos recentes confirmam, a din\u00e2mica desses grupos \u00e9 mut\u00e1vel e vol\u00e1til, e pode levar a conflitos violentos. A popula\u00e7\u00e3o civil acaba ficando sempre no meio. &#8220;Eu sou daqui e quero viver aqui. Caso contr\u00e1rio, eu teria ido embora&#8221;, diz Mariela, resignada.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2023, a Defensor\u00eda del Pueblo da Col\u00f4mbia (\u00f3rg\u00e3o de defesa dos direitos humanos, com fun\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 Defensoria P\u00fablica e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico no Brasil, no Brasil) tem alertado sobre o risco enfrentado pelos povos ind\u00edgenas nessa regi\u00e3o devido \u00e0 amea\u00e7a de grupos armados que exploram a economia do ouro. &#8220;Essa explora\u00e7\u00e3o ilegal e violenta aumentou sua capacidade financeira, permitindo-lhes fortalecer suas estruturas e impor o controle territorial. Nesse contexto, a popula\u00e7\u00e3o civil est\u00e1 exposta a graves viola\u00e7\u00f5es de seus direitos&#8221;, disse o defensor na \u00e9poca, Carlos Camargo. O leito do rio Negro n\u00e3o \u00e9 mais explorado, mas suas \u00e1guas s\u00e3o usadas para transportar o ouro extra\u00eddo para v\u00e1rios destinos na Col\u00f4mbia, Venezuela e Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, as ondas do garimpo viajam das minas para as comunidades. Embora Puerto Colombia n\u00e3o tenha atividade comercial significativa, alimentos e combust\u00edvel s\u00f3 s\u00e3o vendidos por causa da demanda por ouro. &#8220;Os povos ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00e3o garimpeiros. O que acontece \u00e9 que os estrangeiros contratam nossos jovens e eles v\u00e3o para as minas&#8221;, explica, da cabeceira da mesa, Edson Meregildo, um jovem que representa 14 comunidades e quase 1.800 ind\u00edgenas no departamento colombiano de Guain\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">V\u00e1rios de seus conterr\u00e2neos partiram h\u00e1 meses ou anos para Cunucunuma<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-warning-pure-color has-text-color has-link-color wp-elements-ae0c5e4e6648aa7e612b68a26aa77ae5\">e alguns voltaram r\u00edgidos, em freezers conectados a geradores de energia, em barcos que cruzam os rios at\u00e9 a comunidade de origem, onde as fam\u00edlias recebem seus cad\u00e1veres derrotados.<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Dali, rapidamente sempre sai outra pessoa para substitu\u00ed-lo.<br><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Naquela noite, a conversa se estendeu at\u00e9 tarde, e Edson, por seguran\u00e7a, recomendou dormir em uma rede ali mesmo. De manh\u00e3, dezenas de crian\u00e7as ind\u00edgenas que estudam e vivem no internato em Puerto Colombia pularam no rio para tomar banho e brincar um pouco antes das aulas. Depois, foram para a cozinha da escola e receberam uma por\u00e7\u00e3o de biscoitos e caf\u00e9 com leite.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as se divertiam sem medo, mas havia um clima de desconforto no vilarejo: os moradores trocavam olhares desconfiados ou cautelosos; quase ningu\u00e9m falava. De repente, uma lancha apareceu com um homem em p\u00e9 no casco, vestido com roupas civis, usando bon\u00e9 e \u00f3culos escuros. O homem desceu e embarcou em outra lancha atracada na margem. Quando ele se inclinou para ligar o motor, uma pistola apareceu pendurada em seu cinto. &#8220;Aquele era o comandante da guerrilha, o respons\u00e1vel pela \u00e1rea&#8221;, disse o piloto, mais tarde, enquanto segu\u00edamos rio abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">ECONOMIA DE OURO<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXdtuQAyx2PCacWP7f9GHNAr6t4EQ4RKWHbn2MmQjDX0MSA4pzU83kgOeVVAQVVDXPUYRpQOyu-NvUDLsq5GdK6Qdn3huAfqJpvMRlvjf-UaL2M9YWTOl3U7BMgBSpr3xczWtY9l?key=5nCJPqrDkkt54M3md0v1CA\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Encontro dos rios Guain\u00eda e Casiquiare del Orinoco, que juntos formam o grande Rio Negro. Foto: Sinar Alvarado.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>De In\u00edrida, em um voo de 45 minutos sobre a selva, em dire\u00e7\u00e3o ao sul, pequenas aeronaves transportam passageiros e cargas leves para uma pista de pouso de terra em San Felipe, a nova capital comercial do Rio Negro, em seu trecho colombiano-venezuelano. O que n\u00e3o voa at\u00e9 aqui chega pelo leito escuro do rio em toneladas: passageiros, alimentos, bebidas, ferramentas, tijolos, cimento, gasolina e uma s\u00e9rie de outros bens essenciais que sustentam a vida nas comunidades vizinhas. Dessa carga, 80% segue para as minas. O restante \u00e9 consumido nessa cidade de pouco mais de mil habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Juvenal Herrera*, propriet\u00e1rio de um neg\u00f3cio na rua principal, chegou h\u00e1 20 anos e n\u00e3o pode reclamar: comprou casas fora e educou seus filhos com o dinheiro que ganha aqui. &#8220;J\u00e1 tive dias de 20 e 30 milh\u00f5es (de pesos colombianos, entre R$ 27 mil e R$ 40 mil). \u00c9 bom aqui&#8221;, diz ele, satisfeito, em sua loja lotada. &#8220;Entre dezembro e janeiro, trouxe 120 tambores de gasolina. Em fevereiro, j\u00e1 tinha acabado&#8221;. Cada tambor &#8211; 60 gal\u00f5es &#8211; custa 1,2 milh\u00e3o de pesos colombianos (R$ 1.600) em In\u00edrida, e \u00e9 vendido pelo dobro em San Felipe. Se o ouro aqui \u00e9 o rei, a gasolina \u00e9 a rainha: ela alimenta as dragas e os motores dos barcos, os geradores de energia e os sistemas de som das lojas, os ventiladores dos hot\u00e9is e as luzes que iluminam a cidade todas as noites. No entanto, \u00e0s vezes, quando o combust\u00edvel atrasa, os moradores passam v\u00e1rios meses desligados.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>San Felipe n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desprotegida quanto Puerto Colombia: aqui o ex\u00e9rcito e a marinha t\u00eam postos permanentes, e os soldados patrulham com suas armas nos ombros. Mas h\u00e1 muito dinheiro e os grupos ilegais tamb\u00e9m controlam seu fluxo aqui. Comerciantes, trabalhadores do setor de transportes, l\u00edderes ind\u00edgenas e at\u00e9 mesmo a Defensor\u00eda del Pueblo confirmam que eles est\u00e3o presentes, que as lojas pagam extors\u00e3o e que os chefes dos grupos frequentam a cidade em trajes civis. Mas o medo promove a autocensura: em San Felipe, as pessoas n\u00e3o falam sobre o assunto com facilidade ou espontaneidade. Nas conversas entre vizinhos, s\u00e3o compartilhadas hist\u00f3rias de viagens, discute-se pol\u00edtica, futebol e mulheres. Mas as grandes quest\u00f5es s\u00e3o mantidas em segredo. &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 comigo&#8221;, \u00e9 a resposta que se repete quando se pergunta sobre o controle territorial.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O povoado consiste em duas ruas pavimentadas onde vive uma minoria de pr\u00f3speros comerciantes brancos, alguns deles garimpeiros aposentados, cercados por tr\u00eas comunidades de terra batida onde centenas de ind\u00edgenas Yerales, Puinaves e Curipacos vivem em casas de madeira com telhados de palha. O apogeu desfrutado pelos primeiros \u00e9 sofrido pelos \u00faltimos. &#8220;Aqui \u00e9 caro. Muitos garimpeiros v\u00eam com ouro, e tudo sobe. Esta \u00e9 uma economia de minera\u00e7\u00e3o, ouro puro. Mas nem todos n\u00f3s o temos&#8221;, reclama Carlos dos Santos, sentado sob uma \u00e1rvore em uma manh\u00e3 quente nos arredores da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Dos Santos, um homem magro de 38 anos, \u00e9 a autoridade m\u00e1xima da comunidade de Primero de Agosto, onde 43 fam\u00edlias ind\u00edgenas sobrevivem precariamente. &#8220;Vivemos da ro\u00e7a, da ca\u00e7a e da pesca. Sempre houve peixes aqui, mas com o garimpo eles diminu\u00edram muito, por causa do barulho e da polui\u00e7\u00e3o. Agora temos que comprar frango e carne, mas \u00e9 muito caro&#8221;, diz Dos Santos, com as m\u00e3os cruzadas sobre a mesa, como se estivesse rezando. &nbsp;Isolados no \u00faltimo canto da Col\u00f4mbia, os habitantes de San Felipe sentem que os governos os esqueceram.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cV\u00e1rias pessoas morreram aqui. A \u00faltima foi h\u00e1 dois meses: uma garota gr\u00e1vida morreu porque n\u00e3o conseguimos tir\u00e1-la daqui a tempo. Ela morreu com o filho dentro\u201d.<\/p>\n<cite>Carlos Dos Santos, autoridade ind\u00edgena.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O vilarejo tem um posto de sa\u00fade, mas o suprimento de rem\u00e9dios muitas vezes falha, e somente aqueles que podem pagam milh\u00f5es para que seus comprimidos sejam trazidos de avi\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m uma escola que recebe todas as crian\u00e7as da regi\u00e3o, inclusive as que v\u00eam de San Carlos. &#8220;\u00c0s vezes, a comida leva um m\u00eas viajando de In\u00edrida. Ela se perde durante a viagem ou chega molhada. Mas temos que aceitar assim, porque n\u00e3o h\u00e1 mais nada. \u00c0s vezes, a comida atrasa e os professores t\u00eam que esperar at\u00e9 dois meses para come\u00e7ar as aulas&#8221;, conta Dos Santos, cujos filhos tamb\u00e9m estudam ali.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O capit\u00e3o, que antes havia falado sobre o ouro como algo estranho \u00e0 sua cultura e afirmado com convic\u00e7\u00e3o que os povos ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00e3o garimpeiros, mais tarde admite que muitos homens das comunidades pr\u00f3ximas a San Felipe foram para a selva venezuelana em busca do sonho dourado. &#8220;H\u00e1 muito pouco trabalho para os jovens aqui; n\u00e3o h\u00e1 profiss\u00f5es. Muitos v\u00e3o para as minas e n\u00e3o voltam. Mas entendemos que eles n\u00e3o conseguem encontrar coisas para fazer aqui&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video alignfull\"><video height=\"1080\" style=\"aspect-ratio: 1920 \/ 1080;\" width=\"1920\" autoplay loop muted src=\"https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/oro-1.mp4\" playsinline><\/video><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">UMA DESESPERAN\u00c7A COMUM<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Quando as \u00faltimas fronteiras da Col\u00f4mbia e da Venezuela s\u00e3o deixadas para tr\u00e1s, o barco passa pela imensa Pedra de Cocu\u00ed \u2013 uma forma\u00e7\u00e3o de mais de 460 metros de altura, que marca a tr\u00edplice fronteira \u2013 cruza a fronteira brasileira e o leito do rio muda: a \u00e1gua que corre suave encontra pedras e se agita em corredeiras. Ap\u00f3s 12 horas de navega\u00e7\u00e3o rio abaixo, em frente a S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, na Amaz\u00f4nia brasileira, a paisagem tamb\u00e9m muda: pr\u00e9dios e a inusitada agita\u00e7\u00e3o urbana surgem em meio \u00e0 selva. Na beira, subindo como caranguejos em pedras, cerca de 50 ind\u00edgenas vivem em barracas e expostos \u00e0 correnteza que pode arrast\u00e1-los sem esfor\u00e7o. Eles v\u00eam de diferentes comunidades para receber benef\u00edcios do governo e acampam por v\u00e1rios dias enquanto os recebiam. Antes de partir, eles enrolam suas lonas, mas deixam os postes plantados para os outros que chegam ao mesmo acampamento.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, a gasolina ainda reina: no porto de Padre C\u00edcero, no in\u00edcio de abril, centenas de ind\u00edgenas faziam fila para encher tanques financiados pela prefeitura. O combust\u00edvel chega em caminh\u00f5es-tanque que viajam a bordo de barcos vindos de Manaus; ele desembarca em Camanaos, um importante porto a 30 quil\u00f4metros de S\u00e3o Gabriel. A fila andava lentamente naquela manh\u00e3, e muitos ind\u00edgenas dormiam amontoados em uma cabana enquanto era sua vez de carregar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Alex\u00e1nder Moura*, um venezuelano magro de origem brasileira, estava observando a confus\u00e3o no cais e explicou: &#8220;Eles usam parte da gasolina para seus motores e o resto vendem para os garimpeiros. Muita gasolina vem daqui para as minas do Brasil e da Venezuela. \u00c9 uma longa viagem de ida e volta pelo rio: para o norte viaja o combust\u00edvel, e para o sul o ouro que \u00e9 extra\u00eddo com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Alex\u00e1nder nasceu e cresceu na Venezuela, mas seus av\u00f3s s\u00e3o daqui, e ele decidiu emigrar quando a crise se intensificou em seu pa\u00eds. Em S\u00e3o Gabriel, ele sobrevive com a esposa e o filho, como centenas de migrantes que enfrentam a xenofobia diariamente. &#8220;Temos um grupo e somos muitos, a maioria pedreiros e carregadores. Aqui h\u00e1 patr\u00f5es que nos tratam mal, nos pagam menos que aos brasileiros. Mas todos n\u00f3s nos apoiamos&#8221;, disse ele, olhando para o rio.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Censo de 2022, S\u00e3o Gabriel da Cachoeira tem cerca de 50 mil habitantes, dos quais 48 mil s\u00e3o ind\u00edgenas de 23 etnias diferentes: banivas, curipacos, bar\u00e9s, yanomamis e muitas outras. O centro comercial \u2014 algumas poucas ruas com lojas disputando clientes lado a lado \u2014 prospera na parte alta da cidade; e n\u00e3o h\u00e1 estabelecimentos que vendam ouro, j\u00e1 que S\u00e3o Gabriel funciona apenas como ponto de passagem rumo ao vasto mercado brasileiro. Na parte baixa, \u00e0s margens do rio, uma fileira de casas e com\u00e9rcios d\u00e1 de frente para uma praia deserta. \u00c9 o lugar mais bonito da cidade, mas recebe pouca aten\u00e7\u00e3o. \u00c0 frente, largo e turbulento, o rio Negro se agita entre corredeiras que d\u00e3o nome a este porto: cachoeiras.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O restante da \u00e1rea urbana e seus arredores est\u00e3o sob controle militar. Quase toda S\u00e3o Gabriel est\u00e1 sob controle das For\u00e7as Armadas, e soldados s\u00e3o presen\u00e7a constante em caf\u00e9s, padarias e hot\u00e9is. Isso vem desde a ditadura militar: em 1968, essa regi\u00e3o de fronteira foi declarada \u00e1rea de seguran\u00e7a nacional. Ainda assim, o il\u00edcito flui: a lei pro\u00edbe a explora\u00e7\u00e3o de ouro em terras ind\u00edgenas ou reservas naturais, mas a cidade \u00e9 um elo fundamental no esquema de tr\u00e1fico. Em 2023, um juiz da comarca pediu urgentemente ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a a abertura ali de uma delegacia da Pol\u00edcia Federal. Segundo ele, a localiza\u00e7\u00e3o da cidade, no corredor que vem de Col\u00f4mbia e Venezuela, a torna estrat\u00e9gica para o tr\u00e1fico. \u00c9 por aqui que entra o ouro que segue at\u00e9 Itaituba, j\u00e1 no Par\u00e1, onde o metal de origem ilegal \u00e9 injetado na economia em larga escala.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Gabriel \u00e9 um ref\u00fagio onde migrantes em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade se abrigam antes de tentar a sorte rumo ao interior. A venda de gasolina e a economia informal \u2014 que prospera em camel\u00f4s \u2014 mal conseguem disfar\u00e7ar a precariedade, e a desesperan\u00e7a deve ser comum, j\u00e1 que os suic\u00eddios entre jovens ind\u00edgenas se tornaram um problema de sa\u00fade p\u00fablica. Mais um elo que conecta este lugar a San Carlos de R\u00edo Negro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Durante um passeio pela cidade, Alex\u00e1nder, o pedreiro venezuelano, contou que a agricultura tamb\u00e9m entrou em decl\u00ednio durante os quatro anos em que vive aqui. As comunidades locais recebem benef\u00edcios e complementam a renda com o com\u00e9rcio de gasolina. Embora a maioria n\u00e3o esteja diretamente envolvida no com\u00e9rcio de ouro, muitos acabam \u201cbeliscando a fatia do bolo\u201d e sobrevivem com essas sobras. \u201cEles j\u00e1 n\u00e3o ca\u00e7am, n\u00e3o plantam, n\u00e3o pescam. Com esse dinheiro, compram carne e frango que v\u00eam de Manaus\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, no porto de Camanaos, v\u00e1rios venezuelanos e brasileiros suados descarregavam barcos cheios de materiais trazidos de Manaus, onde os rios Negro e Amazonas se encontram. Em v\u00e1rias dessas embarca\u00e7\u00f5es, a Pol\u00edcia Federal j\u00e1 apreendeu carregamentos de ouro ilegal que seguir\u00e3o pelo rio Tapaj\u00f3s at\u00e9 Itaituba.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Dias antes, na viagem rumo a S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, a voadeira ziguezagueava pelo rio Negro em busca de trechos mais profundos, o que prolongou o trajeto enquanto o sol da tarde come\u00e7ava a cair no horizonte oeste. As nuvens se aglomeraram e rel\u00e2mpagos amea\u00e7avam com clar\u00f5es repentinos. Cirilo, um ind\u00edgena de rosto enrugado, reduziu a velocidade e apontou a proa em dire\u00e7\u00e3o a uma praia, onde a embarca\u00e7\u00e3o encalhou com o motor desligado. \u201cEssa tempestade t\u00e1 feia, muito perigoso seguir assim. J\u00e1 vi lancha virar cheia de gente\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Cirilo subiu uma encosta e caminhou entre as casas de uma comunidade que parecia abandonada. Gritou v\u00e1rias vezes, mas ningu\u00e9m respondeu: os ind\u00edgenas que viviam naquelas ocas haviam fugido, sabe-se l\u00e1 quando e para onde. \u201cA gente dorme aqui. Assim que amanhecer, vamos embora\u201d, disse Cirilo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Renny, seu genro e ajudante, outro ind\u00edgena a quem todos chamam de Pequeno, montou um abrigo improvisado na lancha e estendeu v\u00e1rias lonas para proteger o espa\u00e7o onde os dois passariam a noite. Depois, nos sentamos na praia para conversar sobre a antiga profiss\u00e3o dele, iluminados apenas pelos rel\u00e2mpagos. \u201cAgora estamos levando mercadorias para os garimpos, e nos pagam com ouro; mas eu comecei como carregador: levando gasolina, mantimentos. Depois, trabalhei em v\u00e1rios garimpos, e o m\u00e1ximo que consegui foi 39 gramas. A\u00ed me cansei e aprendi a mergulhar. Estive em Cunucunuma e em outros (garimpos). L\u00e1 sim eu tirava 70, 80 gramas. L\u00e1 embaixo a gente se empolga e fica viciado\u201d, contou satisfeito. \u201cEu me salvei de v\u00e1rias pedras grandes. No escuro do rio n\u00e3o se enxerga, mesmo levando lanterna. V\u00e1rios companheiros morreram. Amarravam eles no fundo e os tiravam com guindastes, pingando \u00e1gua\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Pequeno observava o tr\u00e2nsito tranquilo do rio e refletia sobre seu papel como fornecedor e meio de transporte de uma riqueza incalcul\u00e1vel. \u201cO ouro viaja pelo rio para os dois lados: para In\u00edrida e para o Brasil. Igualzinho ao merc\u00fario, que escondem para escapar da lei.\u201d Pequeno contou que, durante sua curta temporada como garimpeiro, ficou com medo do ambiente violento dos garimpos e por isso deixou o trabalho. Sentado na margem, lembrou de brigas resolvidas a golpes de fac\u00e3o e de mortos an\u00f4nimos que foram enterrados em algum lugar da selva. Homens que deixaram suas aldeias e fam\u00edlias para arriscar a vida atr\u00e1s de uma prometida e ilus\u00f3ria riqueza dourada. \u201cTudo pelo ouro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">*Alguns nomes desta reportagem foram alterados para garantir a seguran\u00e7a das fontes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo do rio Negro, a art\u00e9ria que liga a Col\u00f4mbia, a Venezuela e o Brasil na Amaz\u00f4nia, in\u00fameros povos ind\u00edgenas e v\u00e1rias comunidades ribeirinhas sobrevivem em meio ao garimpo e aos grupos armados, dois poderes de fato que dominam essa regi\u00e3o com o peso de um metal nem um pouco nobre: o chumbo.<\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":6771,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","footnotes":""},"categories":[49],"tags":[58,262,247,263,249,264,250,203,265,266,251],"editorial":[],"coauthors":[268],"class_list":["post-6569","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica","tag-amazon-underworld-pt-br","tag-brasil-pt-br","tag-colombia-pt-br","tag-eln-pt-br","tag-farc-pt-br","tag-grupos-armados-pt-br","tag-orinoco-pt-br","tag-periodismo-pt-br","tag-sinar-alvarado-pt-br","tag-trifrontera-pt-br","tag-venezuela-pt-br"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - 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