{"id":7042,"date":"2025-08-19T08:00:00","date_gmt":"2025-08-19T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/amazonunderworld.org\/?p=7042"},"modified":"2025-08-19T12:05:10","modified_gmt":"2025-08-19T15:05:10","slug":"o-estado-da-coca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/amazonunderworld.org\/pt-br\/o-estado-da-coca\/","title":{"rendered":"O Estado da coca"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfBAVz29K2pdCdq_TRwFNxgy1iLS7HM4WiAWzdlZB_pxGkQLBwCdqQ7T6ifUP2H5KfKhmp6Z6e5QEzNG78K9SEq-dueVCrsU1bGnpZ3xO9j5UTiw3CFiI9geaU5KZMwC0GCZW9yrg?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Uma planta\u00e7\u00e3o de coca em Putumayo, onde atualmente h\u00e1 mais de 50.000 hectares da folha cultivados. Foto: Tom Laffay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Mais de duas d\u00fazias de homens fortemente armados e com uniformes militares sentam-se na traseira de caminhonetes, usando chap\u00e9us de abas largas, len\u00e7os pretos e botas de borracha. Eles pertencem a uma das unidades m\u00f3veis do Comandos de la Frontera, um grupo armado colombiano que domina uma extensa rede de rotas que conecta dezenas de milhares de hectares de planta\u00e7\u00f5es de coca com os vilarejos que fornecem m\u00e3o de obra. Elas se conectam a corredores de tr\u00e1fico que atravessam v\u00e1rios pa\u00edses, levando a portos nas costas do Pac\u00edfico e do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p>A Col\u00f4mbia est\u00e1 mergulhada em coca. Atualmente, o pa\u00eds cultiva mais de 250 mil hectares da folha &#8211; um recorde que recentemente levou a Casa Branca a considerar a possibilidade de cancelar a certifica\u00e7\u00e3o da Col\u00f4mbia como parceira na guerra contra as drogas, o que acabaria com o fluxo de centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares em ajuda militar e coopera\u00e7\u00e3o todos os anos.<br><br>Ap\u00f3s d\u00e9cadas de guerras \u00e0s drogas fracassadas e campanhas de erradica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, a produ\u00e7\u00e3o de coca continua inabal\u00e1vel. As chaves do cora\u00e7\u00e3o da coca na Col\u00f4mbia agora pertencem a uma nova gera\u00e7\u00e3o de grupos armados que operam menos como os movimentos guerrilheiros hist\u00f3ricos do pa\u00eds e mais como empresas criminosas transnacionais. Eles se adaptaram, evolu\u00edram e &#8211; o que \u00e9 mais preocupante &#8211; est\u00e3o vencendo.<br><br>A estrat\u00e9gia de &#8220;paz total&#8221; do presidente colombiano Gustavo Petro prometia di\u00e1logo e desmobiliza\u00e7\u00e3o, mas tr\u00eas anos ap\u00f3s o in\u00edcio de seu governo, os grupos armados est\u00e3o em vantagem. Com o fim de sua presid\u00eancia em 2026 e impossibilitado de buscar um segundo mandato, Petro enfrenta uma dura realidade. Na melhor das hip\u00f3teses, ele poder\u00e1 garantir acordos parciais que mal afetar\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o de coca, embora at\u00e9 mesmo pequenas vit\u00f3rias possam ajudar a melhorar uma tend\u00eancia preocupante.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>OS COMANDOS DE LA FRONTERA<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"844\" src=\"https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_PT-100-1024x844.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7175\" srcset=\"https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_PT-100-1024x844.jpg 1024w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_PT-100-300x247.jpg 300w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_PT-100-768x633.jpg 768w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_PT-100-150x124.jpg 150w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Mapa_PT-100.jpg 1050w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos grupos que controlam a produ\u00e7\u00e3o de coca\u00edna \u00e9 o Comandos de la Frontera. As fronteiras colombianas com o Peru e o Equador est\u00e3o entre os principais centros de cultivo de coca do mundo e, embora algumas regi\u00f5es sejam violentamente disputadas por diferentes grupos armados, os Comandos continuam sendo o grupo dominante, com vastas \u00e1reas de territ\u00f3rio sob seu controle hegem\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu feudo, o governo dos Comandos \u00e9 totalit\u00e1rio. Eles restringem o acesso, fazendo com que os conselhos comunit\u00e1rios locais emitam carteiras de identifica\u00e7\u00e3o para controlar quem pode entrar e sair. A organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aplica uma justi\u00e7a rudimentar, punindo ladr\u00f5es, por exemplo, que roubam os produtores de coca. As pessoas que n\u00e3o explicam por que est\u00e3o ali s\u00e3o amarradas a uma \u00e1rvore enquanto eles investigam, enfrentando tortura e desaparecimento quando n\u00e3o h\u00e1 respostas.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder p\u00fablico dos Comandos, Jairo Mar\u00edn &#8211; tamb\u00e9m conhecido pelo codinome &#8220;Popeye&#8221; &#8211; descreve o sistema de justi\u00e7a rudimentar em uma entrevista exclusiva, realizada em um local na fronteira com o Equador. &#8220;Quando capturamos um ladr\u00e3o, primeiro analisamos de onde ele vem, quantos crimes cometeu e, em seguida, podemos ordenar que ele saia da \u00e1rea, sancion\u00e1-lo e a \u00faltima linha de a\u00e7\u00e3o \u00e9 execut\u00e1-lo&#8221;, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como outros membros da lideran\u00e7a dos Comandos, Mar\u00edn pertencia \u00e0s estruturas das For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia &#8211; as Farc &#8211; das quais cerca de 13 mil combatentes se desmobilizaram ap\u00f3s um abrangente tratado de paz, em 2016, que p\u00f4s fim a mais de meio s\u00e9culo de conflito. Mar\u00edn, um homem contemplativo, mas conciso, juntou-se \u00e0s Farc, hoje desmobilizadas, aos 13 anos, e agora est\u00e1 na casa dos 50. Outro comandante local, de codinome Chacal, um homem greg\u00e1rio e doutrinador, de idade semelhante, que participou da entrevista, tinha apenas 11 anos quando se alistou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os principais componentes do acordo de 2016 careciam de verbas no final da presid\u00eancia de Juan Manuel Santos, que ganhou um Pr\u00eamio Nobel da Paz pelo tratado. Sob seu sucessor Iv\u00e1n Duque, que n\u00e3o tinha vontade pol\u00edtica para implementar aspectos essenciais do acordo, a situa\u00e7\u00e3o piorou. O Estado n\u00e3o conseguiu proteger os ex-combatentes, dos quais mais de 500 foram assassinados desde ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Criados em meio a conflitos, os tempos de paz ofereciam pouco al\u00e9m de exclus\u00e3o, amea\u00e7as violentas e morte para pessoas como Mar\u00edn. Os ex-combatentes se viram perseguidos por inimigos antigos e novos, mas dessa vez sem armas para se defender.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vamos nos unir e vamos come\u00e7ar. Vamos nos armar porque n\u00e3o vamos nos deixar matar. Foi assim que come\u00e7amos essa organiza\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Mar\u00edn. Em 2017, 16 homens se reuniram no sul do departamento colombiano de Putumayo, perto do rio San Miguel, que faz fronteira com o Equador, para fundar o que viria a ser conhecido como Comandos de la Frontera &#8211; literalmente &#8220;os comandos da fronteira&#8221;. Atualmente, a organiza\u00e7\u00e3o conta com mais de 1.200 combatentes armados, incluindo ex-soldados e paramilitares.<\/p>\n\n\n\n<p>Putumayo \u00e9 uma das regi\u00f5es de maior biodiversidade do mundo, onde o sop\u00e9 dos Andes se transforma em floresta tropical. Explorada ao longo de gera\u00e7\u00f5es por bar\u00f5es da borracha, exploradores de petr\u00f3leo, garimpeiros e traficantes de drogas, a regi\u00e3o continua sendo uma das \u00e1reas mais violentas da Amaz\u00f4nia, com taxas anuais de homic\u00eddios acima de 50 por 100.000 habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Desde o in\u00edcio da pandemia, os Comandos expandiram suas opera\u00e7\u00f5es para o Peru e o Equador, de acordo com autoridades de intelig\u00eancia e dezenas de entrevistas com fontes da regi\u00e3o &#8211; embora o grupo negue essa presen\u00e7a fora da Col\u00f4mbia.<\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-warning-pure-color has-text-color has-link-color wp-elements-d63135153923d55a09579a42515183c5\">Em 9 de maio deste ano, 11 soldados equatorianos em uma opera\u00e7\u00e3o contra garimpeiros foram mortos em uma emboscada atribu\u00edda aos Comandos, o que eles tamb\u00e9m negam.<\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Embora os Comandos neguem envolvimento direto com o tr\u00e1fico de drogas, alegando que apenas &#8220;taxam&#8221; o com\u00e9rcio de coca\u00edna e o garimpo, l\u00edderes comunit\u00e1rios, autoridades e fontes de intelig\u00eancia contestam essa afirma\u00e7\u00e3o. Nas \u00e1reas de cultivo de coca, os Comandos mataram compradores e vendedores de coca\u00edna e pasta base de coca que operavam fora de seu controle. Isso inclui membros da gangue equatoriana Los Choneros, que ocasionalmente cruzam a fronteira com Putumayo, e o grupo armado rival Carolina Ram\u00edrez, pertencente a uma estrutura dissidente das Farc chamada Estado Mayor Central (EMC).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mar\u00edn descreve sua organiza\u00e7\u00e3o como uma &#8220;guerrilha do s\u00e9culo 21&#8221;. Embora isso reflita, em parte, suas modernas estrat\u00e9gias de combate &#8211; incluindo drones de n\u00edvel militar com alcance de 5 km para reconhecimento e entrega de armas &#8211; bem como a aus\u00eancia de objetivos de derrubada do Estado, a designa\u00e7\u00e3o refere-se principalmente \u00e0 sua configura\u00e7\u00e3o organizacional interna.<\/p>\n\n\n\n<p>As Farc marxistas-leninistas ofereciam poucas liberdades aos combatentes, que eram separados de suas fam\u00edlias e n\u00e3o recebiam nenhuma renda. Nos Comandos de la Frontera, os novos recrutas ganham um &#8220;b\u00f4nus&#8221; mensal de US$ 500, t\u00eam direito a f\u00e9rias e as fam\u00edlias dos combatentes mortos recebem uma pens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa reportagem viu os membros do grupo fazendo chamadas de v\u00eddeo para suas namoradas, navegando pelo TikTok e pensando no que fazer com seu pagamento mensal &#8211; um comportamento impens\u00e1vel para aqueles que lutaram com as Farc em outras \u00e9pocas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;\u00c9 preciso entender que damos o b\u00f4nus porque nossos combatentes t\u00eam seus pais, seus filhos, suas esposas, eles merecem esse b\u00f4nus&#8221;, explica Chacal, usando botas de deserto e uniforme militar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>ENRAIZADOS NA REGI\u00c3O<\/strong><br><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcdZ3rIsH0gOHqEeiwBcqLnc5zEhKMldhato6zyE8obMXAZaq9S0OjVfuJJq9-zkJ4OcOezPkgkKRtzxxxvHzY9jG7yFoAUkklIWIYOxLic5wDswP4GQnJAMX2RuyK_43COFZvo2Q?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Um membro dos Comandos de la Frontera. Muitos recrutas v\u00eam de comunidades ind\u00edgenas. Foto: Tom Laffay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXfoL7bKtqiMo1rjOxaxeVW76Dho90ItB_6_ORzrWFYtmGMODAbZCduYmlZRlH81xnJnYR319GC94hMmj8ZhAop9-29_Hvr_gH545ZM7NxYGvDoUkQCP9F-OdOhux2cM08nP2kvXWw?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jairo Mar\u00edn, negociador-chefe dos Comandos de la Frontera, lidera membros de uma unidade m\u00f3vel pertencente ao grupo armado. Foto: Bram Ebus.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7024\" srcset=\"https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-300x200.jpg 300w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-768x512.jpg 768w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/amazonunderworld.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/DSC00349-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Chacal, comandante dos Comandos de la Frontera, cujo pseud\u00f4nimo se refere a Carlos, o Chacal, o terrorista venezuelano que liderou o ataque \u00e0 sede da OPEP em Viena, em 1975. Foto: Bram Ebus.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de outros grupos armados colombianos, que normalmente enviam novos recrutas a regi\u00f5es distantes para separ\u00e1-los de suas fam\u00edlias e redes de apoio, os Comandos mant\u00eam seus membros dentro de territ\u00f3rios como Putumayo, onde foram criados. &#8220;Somos regionalistas&#8221;, acrescenta Chacal. Como resultado, muitas comunidades t\u00eam um certo senso de proximidade, pois muitas fam\u00edlias t\u00eam um parente dentro da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Comandos entendem a import\u00e2ncia de controlar as comunidades &#8211; inserindo-se nelas e fazendo com que os moradores compartilhem informa\u00e7\u00f5es sobre opera\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito ou grupos rivais. Em cima de um pesado prato de carne, Chacal explica: &#8220;se o Ex\u00e9rcito vier por esta estrada, um dos moradores locais dir\u00e1 imediatamente ao nosso pessoal, pois temos um bom relacionamento com as pessoas&#8221;. Embora sua suposta boa vontade sirva a v\u00e1rios prop\u00f3sitos, essa coopera\u00e7\u00e3o torna os membros da comunidade alvos tanto dos Comandos quanto de seus rivais. O grupo pro\u00edbe o roubo, o consumo de drogas e o comportamento desordeiro, e as multas e puni\u00e7\u00f5es s\u00e3o aplicadas de acordo com essas regras. Os Comandos dizem que o dinheiro vai para fundos comunit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Comandos retiram a m\u00e3o de obra das comunidades locais, for\u00e7ando vilarejos inteiros a construir estradas de terra, transportar areia e pedras dos rios pr\u00f3ximos para cobrir trilhas lamacentas e preencher espa\u00e7os entre pequenos troncos de \u00e1rvores colocados horizontalmente em encostas \u00edngremes. Aos olhos dos Comandos, essas estradas representam um aspecto fundamental do desenvolvimento local gra\u00e7as \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o, e eles insistem que as comunidades locais se beneficiam dessas estradas, mas aos olhos das fontes policiais, elas s\u00e3o estradas para o tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O relacionamento entre as comunidades e n\u00f3s \u00e9 uma parte fundamental de quem somos. N\u00f3s nos tornamos suplementares para as comunidades&#8221;, avalia Chacal. Ele argumenta que os Comandos protegem as comunidades e trabalham em &#8220;transforma\u00e7\u00f5es regionais&#8221; em termos de infraestrutura rural e representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, defendendo investimentos em desenvolvimento regional nos atuais di\u00e1logos de paz com o governo. Ao fazer isso, as popula\u00e7\u00f5es locais instrumentalizadas se tornam uma ferramenta poderosa para sua agenda sociopol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A ret\u00f3rica comunit\u00e1ria parece ser mais do que mera legitima\u00e7\u00e3o. Ambos os comandantes s\u00e3o nativos de regi\u00f5es do sul da Col\u00f4mbia que, tirando seus uniformes de combate, poderiam se misturar perfeitamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o camponesa local &#8211; suas roupas modestas e maneirismos rurais permitiriam que passassem despercebidos se n\u00e3o fossem suas cicatrizes de batalha e os grandes an\u00e9is que enfeitam seus dedos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem Mar\u00edn nem Chacal parecem temer a popula\u00e7\u00e3o civil em suas \u00e1reas de influ\u00eancia &#8211; os povoados que eles controlam com mais rigor. S\u00e3o assentamentos remotos na floresta, acess\u00edveis somente por meio de postos de controle, numa regi\u00e3o onde toda fazenda tem uma arena de briga de galo e ouve-se narcocorridos mexicanos em todos os cantos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os membros vivem e passam seu tempo comendo em estabelecimentos locais, dando generosas gorjetas. Viajando com guarda-costas armados recrutados nos pr\u00f3prios vilarejos, eles circulam livremente pelas comunidades a qualquer hora. \u00c0 noite, eles podem ser encontrados nas pra\u00e7as dos povoados, pedindo churrasco no jantar como qualquer outro morador.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXf893iFJHE5L1ijHxqnIw8qYOffFog0vbExoVKvmtD2sU9szMjqdX0HgpCBb1k40avJjfh_TnuKqtt1Gg66lJZEfJH2Tc5ip8uCUkuVPGG_aD_6noV-ISodeUREZpSIiXIk0qwg?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">As unidades m\u00f3veis, que usam uniformes militares, operam principalmente na selva, embora as comunidades locais pare\u00e7am se adaptar \u00e0 sua presen\u00e7a. Foto: Bram Ebus.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXe0XtOYMPZy7Og5YjjzwrhtlkGFuPbWKRrTbhjIA_tYapH6KmDZOjAVMMUawPo0X169EVxqiYtYLGd-uYvx74bJ1OmvobF4gYuO1u7RIhkwLmYWiLxhQlSrr4K3MTU5COcn-qgn_A?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Membros dos Comandos de la Frontera mant\u00eam presen\u00e7a em algumas comunidades locais, sem uniformes militares, mas armados com pistolas. Foto: Tom Laffay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXcMBamHa9IBoiFK5_xOXkK74iHMkN-2b-I4csr766R0uBFozvQtdJf1s7zUDm2f2aGi6zhAr1vTRcA7Rz9agigz7Sh9eTt9Ell8lstfL82ylasbnnT-wKFws5zbKXj53idwuXQU?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jairo Mar\u00edn, comandante e principal negociador de paz dos Comandos de la Frontera, em um barco no Rio San Miguel, na fronteira entre Equador e Col\u00f4mbia. Em seu poncho est\u00e1 escrito: &#8220;Gra\u00e7as \u00e0 sua paix\u00e3o e comprometimento, voc\u00ea \u00e9 um pilar para sua fam\u00edlia e nossa organiza\u00e7\u00e3o.&#8221; Foto: Tom Laffay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Por exemplo, sempre agimos em nome das comunidades, com respeito m\u00fatuo pelas comunidades e respeito absoluto pelas comunidades ind\u00edgenas e afro-colombianas. Antes de mais nada, elas t\u00eam um sistema de organiza\u00e7\u00e3o social diferente. N\u00f3s, os Comandos de la Frontera, somos apenas um incentivo para melhorar [o desenvolvimento] e a seguran\u00e7a nos territ\u00f3rios&#8221;, explica Chacal.<\/p>\n\n\n\n<p>A chave para seu progresso est\u00e1 no controle sobre as comunidades, que muitas vezes \u00e9 indesejado e obtido por meio da coer\u00e7\u00e3o e da amea\u00e7a cont\u00ednua de viol\u00eancia, ou por meio de uma sensa\u00e7\u00e3o perversa de maior seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezenas de entrevistas com l\u00edderes ind\u00edgenas e representantes camponeses, todos pedem anonimato, pois as consequ\u00eancias de falar contra os Comandos podem ser fatais. Os membros da comunidade em Putumayo descrevem uma forma asfixiante de controle.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eles querem mostrar ao Estado que est\u00e3o de fato trabalhando com as comunidades, mas est\u00e3o, sim, com uma arma&#8221;, explica um l\u00edder comunit\u00e1rio ind\u00edgena. Os grupos \u00e9tnicos t\u00eam terras aut\u00f4nomas reconhecidas constitucionalmente, com um certo grau de autogoverno, mas &#8220;eles n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed&#8221;, diz outro l\u00edder ind\u00edgena sobre os Comandos. O l\u00edder continua acusando-os de recrutar membros de seu grupo \u00e9tnico, inclusive menores de idade, proibindo as equipes de monitoramento territorial ind\u00edgena de entrar em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios e tentando comprar sua lideran\u00e7a. &#8220;O dinheiro da coca\u00edna est\u00e1 fazendo a diferen\u00e7a na Col\u00f4mbia, mas para pior&#8221;, acrescenta um l\u00edder campon\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma regi\u00e3o em que a popula\u00e7\u00e3o depende de uma economia de coca\u00edna controlada por grupos armados e em que as ag\u00eancias estatais n\u00e3o conseguiram desenvolver programas abrangentes de constru\u00e7\u00e3o do Estado, acesso \u00e0 sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, os Comandos s\u00e3o o rei.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>NUEVO PAYA<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXc6LeL7kLjjASWGyLyIki7rkNz-S5h-DOJpdsKvByoC-0c3D1jPNiBb8tCJ85m6seJw9j4lq4t38_pyCmCq5UNqUMNfHBmrlqIYcGfrUCfA1QKXkq3WFZSRDkjWg6ga1kse6zrpgg?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pasta base, o principal ingrediente da coca\u00edna. Foto: Bram Ebus.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Vamos M\u00e9xico! O acorde\u00e3o toca seu refr\u00e3o, que ecoa nos alto-falantes e no rio Putumayo. \u00c9 domingo de manh\u00e3, 9h45, e dezenas de homens com olhos vidrados depois de beber a noite toda sentam-se nos bares com as mesas \u00e0 sua frente cheias de garrafas de cerveja vazias &#8211; assim como o ch\u00e3o &#8211; porque esse \u00e9 o dia de folga deles. N\u00e3o muito longe, c\u00e2nticos altos emergem de um centro comunit\u00e1rio evang\u00e9lico.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos em Nuevo Paya, um assentamento dentro do Parque Nacional La Paya, habitado por alguns dos povos ind\u00edgenas que vivem na \u00e1rea, mas principalmente um vilarejo de &#8220;colonos&#8221; &#8211; colonos, alguns novos, outros que vivem l\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas. Muitos chegaram depois de fugir de epis\u00f3dios de conflito violento, escondendo-se na selva e, muitas vezes, encontrando um meio de vida na coca, a \u00fanica economia vi\u00e1vel ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Fomos desalojados pelo Ex\u00e9rcito, que disparou bazucas, bombas e morteiros contra n\u00f3s&#8221;, lembra Jaime Ruiz, um agricultor de coca conhecido como &#8220;El Paisa&#8221;, que foi desalojado em 2013, quando o Ex\u00e9rcito lan\u00e7ou uma s\u00e9rie de ataques contra a guerrilha das Farc, presente no local. &#8220;Eles dispararam morteiros em nossa dire\u00e7\u00e3o, aterrissaram perto de nossas casas, ent\u00e3o, infelizmente, tamb\u00e9m nos expulsaram de nossos territ\u00f3rios&#8221;, diz ele, explicando por que se mudou para o isolamento da \u00e1rea protegida do parque nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>As Farc se desmobilizaram depois do acordo de paz de 2016, mas n\u00e3o demorou mais de dois anos para que grupos dissidentes e novos grupos armados aparecessem em Puerto Legu\u00edzamo, um munic\u00edpio no departamento de Putumayo, maior do que a Jamaica, que faz fronteira com o Peru e o Equador. O Parque Nacional La Paya, com 422 mil hectares, cobre quase metade de sua extens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para chegar \u00e0 fazenda de El Paisa, um pequeno barco a motor manobra sobre um labirinto de igarap\u00e9s em uma densa floresta tropical, alguns dos igarap\u00e9s cobertos de mato. Jacar\u00e9s e golfinhos de \u00e1gua doce se escondem nas \u00e1guas escuras, enquanto os martim-pescadores e a cigana pr\u00e9-hist\u00f3rica &#8211; o f\u00f3ssil vivo &#8211; ficam perto da \u00e1gua e os macacos-esquilo pulam de galho em galho. Sandra Ahuite Otaya, uma representante da comunidade local, brinca que, embora os soldados possam caminhar at\u00e9 a \u00e1rea do parque durante a esta\u00e7\u00e3o seca, os barcos da Marinha n\u00e3o conseguem lidar com os igarap\u00e9s, rasos e pequenos, cheios de troncos de \u00e1rvores. Ela ri dizendo que eles, os colonos ilegais, j\u00e1 tiveram que guiar um barco da Marinha chamado Piranha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de um dos igarap\u00e9s, surgem espa\u00e7os abertos na densa floresta. Alguns t\u00eam cabanas de madeira sobre palafitas, com muitos tambores de gasolina na margem do rio. Aparecem as entradas das fazendas de coca e seus laborat\u00f3rios de pasta de coca adjacentes &#8211; para produzir o precursor da coca\u00edna. No Parque Nacional La Paya, h\u00e1 pelo menos 1.800 hectares de planta\u00e7\u00f5es de coca, o principal ingrediente de uma economia il\u00edcita que impulsionou d\u00e9cadas de conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma dessas fazendas vive El Paisa. Vestindo cal\u00e7as cargo pretas e botas, sem camisa, ele anda de um lado para o outro, tagarela e en\u00e9rgico, enquanto procura sua camisa de futebol e seu bon\u00e9 surrados do Milan.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estamos cansados disso. Vemos que a coca sempre prejudicou este pa\u00eds&#8221;, diz ele, enquanto caminha por seus 6 hectares de planta\u00e7\u00f5es de coca, que d\u00e3o quatro colheitas por ano. Apesar da viol\u00eancia, o neg\u00f3cio da coca\u00edna permite que El Paisa pague seus trabalhadores e despesas e mantenha sua empresa em funcionamento. &#8220;A coca \u00e9 uma forma de sustentar a n\u00f3s mesmos, nossos filhos e nossa fam\u00edlia&#8221;, acrescenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para eliminar gradualmente os cultivos de coca e substituir o cultivo il\u00edcito por cultivos legais de alimentos, explica El Paisa, \u00e9 necess\u00e1ria uma solu\u00e7\u00e3o negociada entre o Estado, as comunidades e os Comandos de la Frontera.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Agora mesmo, temos outro grupo em nosso territ\u00f3rio, em negocia\u00e7\u00f5es com o governo colombiano; eles querem conversa\u00e7\u00f5es de paz. Para n\u00f3s, camponeses, isso \u00e9 muito importante porque daria um pouco de fim \u00e0 guerra. Seria maravilhoso, para dizer o m\u00ednimo, se pud\u00e9ssemos desfrutar de um Putumayo pac\u00edfico.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>PAZ E POL\u00cdTICA DE DROGAS<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXc7OGFMMrqj0QWfB2TvqhZ5PiBVQ8duFSA-bURFsY8Bhv02wITnY44p8fniSvFgar3ZPXc9JEGdgzeNXC86yZ5723g3Unl8TDAx3VRUVUV-qiALsTkVpD_WQtG_9_-d8PjugyqD3A?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Uma planta\u00e7\u00e3o de coca no departamento de Putumayo, na Col\u00f4mbia. Atualmente, h\u00e1 mais de 50.000 hectares. Foto: Tom Laffay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXeVXlmhiqTaWnjVs7O0riBeWYWrN6j2b0f7545soKVOvRwAK9fOul5qEHNsTi3gthMd63en3svX3wdmw8ZztjlBd2ms05PKjvKUV3BOA287CnAxqrtD7PZHZytdOZxgfeDSDj5yZA?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Laborat\u00f3rio onde as folhas de coca s\u00e3o processadas. V\u00e1rios dos trabalhadores s\u00e3o migrantes venezuelanos que encontraram aqui um meio de vida vi\u00e1vel. Foto: Bram Ebus.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXeghj241DTTbgtcCT_riDgc2GLFYhxnE5CphyuDJMrVxYoW6UVJbeGNiQ_qH5IEWSKVxnTEeJKk3B0JSPPhjUVYbz8uDYMDj41AX7jMJh3NC-BUHU8-zL4diDvxpPu22b9MCZpJFA?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Um raspach\u00edn (raspador de coca) trabalhando em uma planta\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia, perto da fronteira com o Equador. Foto: Tom Laffay.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de um plano ambicioso para intermediar a paz com todos os in\u00fameros grupos armados e organiza\u00e7\u00f5es criminosas da Col\u00f4mbia, apenas alguns di\u00e1logos continuam em andamento. Os defensores dos direitos humanos alertam que os grupos armados expandiram suas tropas, sua economia e seu territ\u00f3rio enquanto participavam dos di\u00e1logos de paz. Atualmente, 790 munic\u00edpios da Col\u00f4mbia contam com sua presen\u00e7a, o que representa mais de 70% do total do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do cen\u00e1rio sombrio, os Comandos e o governo continuam em negocia\u00e7\u00f5es. O negociador-chefe do governo, Armando Novoa, um advogado de carreira de fala f\u00e1cil, sentado em um escrit\u00f3rio em um arranha-c\u00e9u de Bogot\u00e1, acredita que acordos parciais r\u00e1pidos com os Comandos de la Frontera podem ser alcan\u00e7ados &#8211; acordos simbolicamente importantes que poderiam, por exemplo, envolver a entrega de armas, a desmobiliza\u00e7\u00e3o de uma parte das tropas e a redu\u00e7\u00e3o do cultivo de coca.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Para n\u00f3s, \u00e9 muito importante chegar a acordos por meio de conversa\u00e7\u00f5es de paz para conseguir a erradica\u00e7\u00e3o das folhas de coca da economia ilegal por meio do di\u00e1logo, com a participa\u00e7\u00e3o direta das comunidades nesses territ\u00f3rios&#8221;, diz Novoa. &#8220;Essas s\u00e3o \u00e1reas historicamente negligenciadas pelo Estado colombiano, onde n\u00e3o h\u00e1 interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou pol\u00edticas sociais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>As comunidades de Putumayo fazem o poss\u00edvel para permanecer neutras e compartilham um desejo unificado de paz em seus territ\u00f3rios, rejeitando todas as interven\u00e7\u00f5es armadas. Elas precisam urgentemente de alternativas vi\u00e1veis ao cultivo de coca, dizem, uma cultura cuja convers\u00e3o em coca\u00edna desencadeou a viol\u00eancia e causou divis\u00f5es. Entretanto, at\u00e9 que a estabilidade retorne, o cultivo de coca continua sendo o principal meio de sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>A amea\u00e7a de Trump de cancelar a certifica\u00e7\u00e3o da Col\u00f4mbia como parceira na guerra contra as drogas prejudica os pr\u00f3prios objetivos que ele busca alcan\u00e7ar. A medida traria amplas consequ\u00eancias pol\u00edticas e econ\u00f4micas, incluindo a redu\u00e7\u00e3o do financiamento para as for\u00e7as armadas da Col\u00f4mbia, o que na verdade enfraqueceria a capacidade do pa\u00eds de combater grupos como os Comandos e erradicar a coca.<\/p>\n\n\n\n<p>Novoa adverte n\u00e3o apenas sobre as dr\u00e1sticas consequ\u00eancias para a seguran\u00e7a, mas tamb\u00e9m sobre a falta de reflex\u00e3o nos Estados Unidos &#8211; o pa\u00eds que mais consome coca\u00edna no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Estamos tentando um di\u00e1logo em busca de uma solu\u00e7\u00e3o para um problema complexo que a sociedade colombiana claramente n\u00e3o criou sozinha. H\u00e1 uma responsabilidade global aqui. Quando olho para as ruas de Manhattan, onde muitos executivos consomem coca\u00edna nos fins de semana, pela qual pagam muito, a quest\u00e3o \u00e9 se h\u00e1 alguma responsabilidade pelo que acontece com os agricultores no sul do pa\u00eds, em Putumayo, onde os Comandos de Frontera est\u00e3o baseados.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a Col\u00f4mbia enfrentando a possibilidade de ser desclassificada, a redu\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es de coca permitiria que o governo Petro renegociasse termos mais favor\u00e1veis com Washington. \u00c0 medida que as op\u00e7\u00f5es diminuem, os Comandos de repente se tornaram de import\u00e2ncia crucial para esse esfor\u00e7o. O governo j\u00e1 garantiu um acordo inicial para reduzir o cultivo em 15.000 hectares em Putumayo.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez sem estar totalmente ciente de sua influ\u00eancia, Mar\u00edn se compromete a &#8220;permitir a entrada do Estado&#8221; para implementar programas de substitui\u00e7\u00e3o de culturas com os produtores de coca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de v\u00e1rios fracassos anteriores devido \u00e0 falta de financiamento, confus\u00f5es burocr\u00e1ticas e programas mal elaborados, essa tentativa pode ser diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>No 32\u00ba andar, com vista para as montanhas do leste de Bogot\u00e1, Gloria Miranda, diretora de Pol\u00edtica de Drogas da Col\u00f4mbia, explica os dois pilares da pol\u00edtica colombiana em rela\u00e7\u00e3o aos plantadores de coca: oxig\u00eanio e asfixia. &#8220;E essa [asfixia] \u00e9 especificamente a pol\u00edtica punitiva criminal e militar do Estado. J\u00e1 o oxig\u00eanio tem a ver com a abordagem das causas estruturais que for\u00e7am as pessoas a cultivar, digamos, coca, maconha ou papoula para fins il\u00edcitos&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Miranda reconhece que o apoio dos grupos armados e sua disposi\u00e7\u00e3o em colaborar com a agenda de paz da Col\u00f4mbia s\u00e3o fundamentais. Os grupos armados j\u00e1 plantaram minas terrestres ao redor dos campos de coca e empregaram atiradores de elite para atacar os erradicadores de planta\u00e7\u00f5es. A disposi\u00e7\u00e3o dos Comandos em permitir que o Estado avance com projetos de substitui\u00e7\u00e3o de cultivos n\u00e3o s\u00f3 facilita a implementa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 socialmente vi\u00e1vel, pois o grupo, de forma paradoxal, representa a agenda e o movimento cocalero.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se o grupo ilegal presente no territ\u00f3rio respeitar o desejo dos fazendeiros de fazer a transi\u00e7\u00e3o para uma economia legal, essa transi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil&#8221;, diz Miranda, ressaltando tamb\u00e9m a necessidade de apoio estrangeiro. &#8220;N\u00f3s, \u00e9 claro, estamos muito empenhados em apresentar esses resultados r\u00e1pidos e demonstr\u00e1-los \u00e0 comunidade internacional. Os Estados Unidos s\u00e3o e t\u00eam sido um aliado fundamental da Col\u00f4mbia na luta contra o tr\u00e1fico de drogas&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Miranda est\u00e1 convencida de que o Estado pode intermediar um acordo com Mar\u00edn, especialmente devido \u00e0s ra\u00edzes locais de seus l\u00edderes e combatentes. &#8220;Acho que eles perceberam que a guerra \u00e9 insustent\u00e1vel, que embora traga dinheiro, a economia ilegal n\u00e3o traz o que todos n\u00f3s estamos procurando, que \u00e9 paz e tranquilidade, porque vamos lembrar que os Comandos de la Frontera ou qualquer outro grupo que esteja presente em um territ\u00f3rio na Col\u00f4mbia tamb\u00e9m s\u00e3o pessoas que s\u00e3o do territ\u00f3rio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh7-rt.googleusercontent.com\/docsz\/AD_4nXdeczH9QvtHFrmt21Bcn5NzCpDmrMGUVzhcNlUXoYn1O6UjUY5JqBvRtCjh1K-rCemiNZoNo9wW3nn3cYe25B-OYwFy6pxyCQ6ziLWRWx0QXDZZtfXgqJr9j7fLylEoAN2aofUANA?key=npcrFVq0Cgrvf_dX8sTzzw\" alt=\"\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Membros dos Comandos de la Frontera. Foto: Bram Ebus.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Um pouco surpreso com a pergunta sobre onde ele espera estar em cinco anos, quando entrevistado na fronteira da Amaz\u00f4nia colombiana, Mar\u00edn mexe na trava de seguran\u00e7a de seu rifle autom\u00e1tico e diz: \u201cQuero dizer, se houver um processo de paz e o governo obedecer, eu me vejo em uma regi\u00e3o como esta, com uma pequena fazenda, um projeto legal, com minha fam\u00edlia, muito pac\u00edfica. Se o governo concordar e garantir que ningu\u00e9m vir\u00e1 nos incomodar e que os produtos que come\u00e7aremos a cultivar ser\u00e3o vendidos, que as pessoas os comprar\u00e3o e, com isso, poderemos nos sustentar. Pessoalmente, estou apoiando o processo de paz com seriedade e cora\u00e7\u00e3o para que isso aconte\u00e7a e possamos viver em paz.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Com um olhar de relance e um sorriso, Chacal responde por sua vez: &#8220;Eu, liderando grandes marchas sociais e pol\u00edticas!&#8221; &#8211; imaginando um futuro de lideran\u00e7a de movimentos camponeses na regi\u00e3o, que ele v\u00ea como uma continua\u00e7\u00e3o de sua luta atual, mas sem armas.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, com as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e legislativas previstas para 2026 em meio a um ambiente altamente polarizado, h\u00e1 uma chance de que os projetos de paz da Col\u00f4mbia n\u00e3o tenham continuidade e que a nova lideran\u00e7a pol\u00edtica insista em solu\u00e7\u00f5es militares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo c\u00ednico dos Comandos de la Frontera, onde cuidar das comunidades significa pagar jovens para participar de um novo cap\u00edtulo do conflito interno, onde o trabalho for\u00e7ado para a constru\u00e7\u00e3o de estradas \u00e9 chamado de desenvolvimento local, uma m\u00e1quina de guerra em constante expans\u00e3o se prepara simultaneamente para o pior.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Assim como estamos nos preparando para a paz, tamb\u00e9m estamos nos preparando para a guerra. Porque a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios. Se n\u00e3o houver paz, ent\u00e3o devemos nos preparar&#8221;, vaticina Chacal.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quatro caminhonetes brancas sem identifica\u00e7\u00e3o correm por uma paisagem de planta\u00e7\u00f5es verdes brilhantes, passando por lama\u00e7ais em estradas sinuosas no meio da floresta. Ao fazer uma curva acentuada, o comboio atrai olhares preocupados de uma fam\u00edlia inteira reunida em uma casa de madeira decorada com serpentinas de anivers\u00e1rio &#8211; o clima de festa \u00e9 repentinamente abalado. 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