Militares equatorianos reconhecem o abandono técnico e tático das zonas fronteiriças e das estradas da Amazônia. Isso ocorre em meio às novas tarefas de segurança interna que assumiram como parte da estratégia do presidente Daniel Noboa para enfrentar o “conflito armado não internacional”, declarado pelo governo em janeiro de 2024 em resposta a uma crise de segurança sem precedentes. Essa declaração foi questionada nacional e internacionalmente por aqueles que consideram que ela não cumpre os parâmetros exigidos. Enquanto isso, grupos armados colombianos e gangues equatorianas continuam ampliando seu poder e influência, com dinheiro proveniente principalmente da mineração ilegal de ouro e do tráfico de drogas. O governo tem destacado que faz esforços para combater esses crimes, mais com operações pontuais do que com uma política abrangente, mas, na prática, essas atividades continuam prosperando.

Um membro do serviço de inteligência militar do Equador, a quem chamaremos de coronel Eduardo*, participou há alguns meses de uma operação na província de Sucumbíos, próximo à fronteira com a Colômbia. Entre frustrado e realista, ele admitiu que “para os dois exércitos é difícil [cobrir as zonas fronteiriças] devido à falta de meios”.  

O coronel Eduardo explicou que as Forças Armadas equatorianas não conseguem manter o controle da fronteira “devido às inúmeras atividades que nos foram atribuídas: estamos nas prisões, estamos fazendo controle de armas, munições e explosivos, estamos envolvidos nesses problemas de ajuda à Secretaria (Nacional de Gestão) de Riscos por derramamentos de petróleo, controle dos oleodutos”.

Com uma violência descontrolada, sobretudo no litoral do Equador – por onde sai a droga, proveniente principalmente da Colômbia, em direção a mercados internacionais – a fronteira da Amazônia não aparece entre as prioridades do presidente Daniel Noboa. Isso apesar de a dinâmica na região mostrar a expansão de grupos armados colombianos e gangues equatorianas, envolvidas em atividades como garimpo ilegal e tráfico de drogas. 

Argumentando falta de cooperação da Colômbia em questões de segurança, Noboa anunciou em 21 de janeiro a decisão de impor uma tarifa de 30% às importações colombianas, o que causou irritação em seus vizinhos e decisões que só têm aumentado as tensões entre os dois países.

A Amazônia equatoriana enfrenta um crescente problema de criminalidade que permeia as instituições estatais e abriu espaço para grupos criminosos. Os Comandos de la Frontera (CDF), um dos grupos dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e que atualmente mantém diálogos de paz com o governo colombiano, exercem um forte controle social e territorial no departamento de Putumayo, onde há uma abundância de plantações de coca e laboratórios de processamento para produzir pasta base de cocaína.  As atividades do grupo ultrapassam a fronteira, criando aliança com a gangue equatoriana Los Lobos − um grupo classificado pelo governo do Equador como Grupo de Delinquência Organizada (GDO).

Na fronteira também operam, embora com menos força, outras duas dissidências das Farc: a Frente Carolina Ramírez e a Frente Raúl Reyes (ambas rivais dos Comandos). Além disso, segundo relatos de várias fontes na fronteira, Los Choneros, outra gangue equatoriana rival dos Los Lobos, invadiu a Colômbia para comprar cocaína ou pasta base, às vezes enfrentando os CDF. 

Segundo o coronel Eduardo, as principais rotas fluviais utilizadas pelas redes criminosas que operam na Amazônia equatoriana são os rios San Miguel e Putumayo. Esses cursos d’água demarcam as fronteiras entre os dois países e são passagens diretas do território equatoriano para povoados colombianos, como Puerto Asís e La Hormiga, que estão sob o controle dos CDF. Ele também mencionou os rios Aguarico e Güepi, por sua conexão com o rio Napo, que tem saída para o Peru. 

Fontes militares confirmaram que, até o final de 2025, havia mais de 1.000 soldados “com autorização nas províncias fronteiriças” — que se estendem desde o Oceano Pacífico, cruzam os Andes e chegam à Amazônia —, mas cerca de 70% desse contingente militar está destinado a atividades de segurança interna, antes inteiramente de responsabilidade da polícia. A incorporação das Forças Armadas a essas tarefas ocorreu a partir da declaração do governo da existência de um conflito armado interno e da implementação de uma política questionada de militarização da segurança.

Para Juanita Goebertus, diretora da Divisão das Américas da organização Human Rights Watch, com sede em Washington, “é um erro caracterizar isso como um conflito armado, não apenas porque não atende aos critérios de nível de organização e hostilidade, mas porque o que se fez ao enviar forças militares foi criar um clima perfeito para abusos”.

“Temos sido muito críticos em relação à ausência de uma política de segurança real por parte do governo de Noboa, porque o que temos visto é que a implementação dessa estratégia de declarar isso como conflito armado não só tem sido pouco eficaz, como também tem gerado graves violações dos direitos humanos”, acrescentou.

ABUSOS E EXCESSOS

A militarização do território intensificou-se após um duro golpe que o crime organizado deu no Exército. Em 9 de maio de 2025, um batalhão de 20 soldados que patrulhava a zona alta do rio Punino — na região que divide as províncias de Napo, Orellana e Sucumbíos — foi emboscado por homens armados que assassinaram 11 militares. A operação, segundo o governo, tinha como objetivo deter o avanço do garimpo naquele setor. No confronto, foi morto Miller Rodríguez Ortega, conhecido como “Compadre”, identificado como líder dos Comandos de la Frontera no Equador e responsável pelo controle do garimpo.

Versões contraditórias circularam sobre o episódio: autoridades do governo atribuíram o ataque aos Comandos de la Frontera, mas Wálter Mendoza e Jairo Marín, líderes do grupo na Colômbia, negaram categoricamente a participação.

Roupas e equipamentos dos soldados assassinados em Alto Punino, em 9 de maio de 2025, encontrados pelas Forças Armadas. Foto: Exército do Equador.

Após o ataque, o governo de Noboa declarou como grupos armados organizados os grupos de origem colombiana Comandos de la Frontera, Frente Óliver Sinisterra (outra dissidência das ex-FARC) e Comuneros del Sur, uma facção dissidente do Exército de Libertação Nacional (ELN), que opera principalmente no departamento de Nariño, na fronteira com o Equador, e que está em negociações de paz com o governo do presidente colombiano Gustavo Petro.


Além disso, o Equador ordenou o envio de 1.500 soldados, o maior contingente militar dos últimos anos na Amazônia, para “encontrar e eliminar” os autores da emboscada. Falou-se da implementação de um cerco tático da área, com operações de reconhecimento ofensivo, rastreamentos territoriais e reforço da vigilância aérea com helicópteros e drones.


Essa presença militar foi sentida na região amazônica. Uma mulher indígena de uma comunidade às margens do rio San Miguel conta que, com a militarização, todas as atividades foram interrompidas e que, à noite, não se ouviam mais barcos. Após o assassinato dos soldados, o impacto na população dessa área foi notório. Muitos temeram por suas vidas, suas comunidades e famílias, enquanto outros habitantes de Napo e Orellana confiaram que poderia representar o início da erradicação do garimpo e dos grupos armados. “Mas o tempo passou e vimos que os barcos voltaram a circular”, lamenta a mulher.


Algumas semanas após a emboscada aos militares, na tarde de uma terça-feira, em outra localidade fronteiriça, outro grupo de cerca de 20 soldados invadiu a casa de uma família.

Eles apontaram armas para todas as pessoas da casa: uma menina de 10 anos, um adolescente de 17, quatro adultos — dois homens e duas mulheres — e até mesmo um cachorro. Disseram que estavam à procura de armas e drogas. “É preciso pressionar este homem a falar, porque ele deve saber alguma coisa”, disse um deles, apontando a arma para um dos homens, segundo relatado em uma denúncia registrada ao Ministério Público. Ainda revistaram gavetas, armários e roubaram os celulares dos dois menores de idade. Quando os homens foram embora e a família arrumou a casa, descobriu que também haviam sumido uma joia avaliada em US$ 400 e US$ 240 em dinheiro.

As comunidades da região passaram de sentir que os soldados ofereciam proteção contra a ameaça de grupos criminosos a ter medo da chegada do Exército aos seus territórios.


“Eles viam uma motocicleta estacionada em uma casa sem o dono e também a levavam. Todos eram vistos como se estivessem ligados a atores armados. Eles pegaram dois jovens que estavam em uma moto. Levaram-nos e torturaram-nos. Um foi deixado na mata e o outro ficou quase inconsciente de tanto que o espancaram, supostamente com a intenção de obter informações”, contou uma fonte em uma comunidade indígena fronteiriça.


Em setembro de 2025, a Anistia Internacional apresentou o relatório “Son militares, yo los vi” (“São militares, eu os vi”), que analisa cinco casos de desaparecimento forçado ocorridos no Equador durante 2024 no âmbito da declaração de “conflito armado interno”, apontada por organismos de defesa dos direitos humanos como uma medida que contraria os padrões e normas do direito internacional. Como resultado, foram registrados casos de graves violações de direitos humanos e crimes como execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias e tortura que chegaram aos tribunais. No entanto, a Amazônia equatoriana ainda não foi incluída nas estatísticas.


Nas operações após o ataque aos militares, acampamentos de garimpeiros e casas foram destruídos e máquinas pesadas foram apreendidas. Em setembro de 2025, o governo de Noboa anunciou a “nova fase da guerra”, que incluiu nove províncias — entre elas Sucumbíos, Orellana e Napo — para neutralizar alvos de alto valor, atacar alvos específicos e reforçar os controles. Foram relatadas apreensões de drogas e o resgate de duas pessoas sequestradas por supostos membros dos Comandos de la Frontera.
Quatro meses depois, em 2 de fevereiro, o governo equatoriano anunciou a suspensão indefinida de todas as atividades de mineração em Napo, onde está localizado um dos focos da mineração ilegal de ouro.

Membros dos Comandos de la Frontera no departamento de Putumayo, Colômbia. Foto: Bram Ebus.

Katherine Herrera, cientista política e mestre em Pesquisa em Segurança e Defesa Nacional, criticou a realização de operações pontuais em vez de apostar em uma presença permanente e sustentada. “As ações das Forças Armadas permanecem mais em um nível tático, imediato, mas não há uma presença sustentada”.


“Não há política pública, não há estratégia. A Amazônia deveria ter sua própria estratégia diante dessas ameaças e riscos devido à sua composição territorial, geográfica e à sua população [formada por] povos e nacionalidades” indígenas, afirmou.
E acrescentou, ainda, que as Forças Armadas já experimentam “um desgaste” como resultado de seu envolvimento em tarefas de segurança interna.


Uma segunda fonte do sistema de inteligência militar insistiu na falta de equipamento para enfrentar as ameaças na região. “Não é só enviar pessoas para a fronteira, você precisa de tecnologia, helicópteros, caças, navios… Para cumprir todas as tarefas, você deve estar bem equipado para a guerra. Então, é por isso que nos atacam em Alto Punino, nos bombardeiam, nos emboscam, porque começamos a fazer outras tarefas que deixam de lado nossa razão de ser”.

Para falar sobre a Amazônia e as operações das Forças Armadas, a equipe de Amazon Underworld pediu uma entrevista com o comandante da IV Divisão do Exército Amazonas, o general Fernando Silva, mas não obtivemos resposta.

UM MAPA DO SILÊNCIO

“Esse cara é dessa gente” – sussurrou a mulher, quase sem mover os lábios, com a cabeça baixa e o olhar fixo na areia da praia.

O homem na canoa – em pé ao lado do motor – olhou para nós por alguns segundos. Levantou a mão para nos cumprimentar e voltou a olhar para a frente, enquanto continuava seu caminho rio abaixo. A figura do homem foi diminuindo até se tornar uma mancha e o barulho mergulhou na selva. Só então a mulher ergueu o olhar e continuamos a caminhar.

“Pela maneira de ser, nós os identificamos… porque são pessoas estranhas. Já se sabe que estão ligados a isso”, diz ela. “Isso”. Os amazônicos criaram maneiras de falar sobre a presença de grupos armados e dedicados ao narcotráfico com eufemismos ou termos genéricos: “essas coisas”, “pessoas que estão envolvidas nisso”, “guerrilheiros”, “as Farc”, “a máfia”. Não importa se pertencem a um grupo armado colombiano, ao crime organizado equatoriano ou a uma gangue local. Alguns os chamam de Los Lobos e outros os associam a Los Choneros, indistintamente. 

A falta de certeza quanto à identidade dos grupos armados que operam na Amazônia equatoriana é generalizada e se deve, em grande parte, à rapidez com que as dinâmicas criminosas mudam na região. 

“A maioria é colombiana, eles têm pessoas em diferentes pontos da fronteira que informam se veem algum movimento do Exército, e há equatorianos que estão se prestando a isso”, disse a mesma mulher. “Você não vai dizer que falou comigo, não é? Não vá colocar meu nome. Não vá dizer que eu te contei isso, aqui todos sabemos quem somos”, pediu ela, preocupada.

As estradas também são rotas constantes de membros de grupos armados, garimpeiros, traficantes de drogas ou de combustível. É o caso da estrada que conecta as províncias de Carchi (na zona andina fronteiriça) e Sucumbíos, onde está localizado o Centro Binacional de Fronteira San Miguel (Cebaf), a poucos quilômetros da fronteira, ou a que vai de Francisco de Orellana a Tena, que une essas duas capitais amazônicas.

“Às vezes, nós os vemos chegando. Eles estão lá na mata, como quem não quer nada, e em barcos carregados com sacos que parecem sacos de açúcar, para não dar na vista”, explicou um idoso. 

O coronel Eduardo fala de duas vias principais usadas para o tráfico e a logística das atividades ilegais. Essas rotas vão da Amazônia norte até o litoral do Pacífico, em direção ao porto de Guayaquil, o principal do Equador, de onde partem contêineres com cocaína. De acordo com os depoimentos coletados nos últimos dois anos, há uma terceira rota que vai de Tulcán a La Barquilla (na entrada da Amazônia), depois a Cascales, até se conectar com as principais cidades da Amazônia norte do Equador e com a rede rodoviária que comunica com o centro do país, com a região interandina e com o litoral. Esta é usada por grupos armados, principalmente os Comandos de la Frontera.

Enquanto na Colômbia os Comandos de la Frontera fizeram um acordo com o governo colombiano para destruir armas e substituir plantações de coca no âmbito das negociações de paz, há evidências de que o grupo continua semeando violência e afetando a população em ambos os lados da fronteira. Esse grupo é acusado em Putumayo de assassinatos e ameaças contra líderes locais, de recrutar menores, de controlar quem entra e quem sai, de aplicar punições e provocar confinamentos. Do outro lado da fronteira, está envolvido no tráfico de drogas e na mineração ilegal.

A Human Rights Watch considera que a maneira como os diálogos foram conduzidos no âmbito da chamada “paz total” do presidente Gustavo Petro “permitiu o fortalecimento” dos grupos armados que operam na fronteira e que esse processo serviu “para continuar ampliando o controle territorial e cometer abusos contra os moradores desses territórios”, disse Juanita Goebertus.

Para a cientista política Herrera, os vínculos entre os grupos armados da Colômbia e as gangues do Equador não são estabelecidos entre atores semelhantes. Ela acredita que a associação entre Los Lobos e os CDF na Amazônia do Equador responde a “alianças funcionais”, nas quais o crime organizado transnacional contrata gangues locais capazes de fornecer os serviços de que precisam, ou seja, conhecimento sobre rotas e possíveis locais de armazenamento, sequestros ou extorsões, venda de drogas no varejo ou tráfico de pessoas.

Herrera apontou a falta de ações estatais contra o que define como “ator macro do crime organizado transnacional, que afeta em diferentes países onde tem presença, capacidade armamentista, treinamento e fluxo de dinheiro, e está envolvido no sistema político, não apenas em ações pontuais, mas também na política. São eles que escolhem”, explicou.

Para a especialista, o fato de as Forças Armadas se ocuparem de tarefas que não lhes competem fará com que a presença esporádica de grupos estrangeiros organizadas se torne uma presença permanente na região amazônica.

Membros do grupo Comandos de la Frontera fazem movimentações em uma zona rural do departamento de Putumayo. Foto: Bram Ebus.

No Equador, os Comandos de la Frontera já operam com líderes locais, segundo as autoridades. Um deles foi identificado como Roberto Carlos Álvarez Vera, conhecido como “Gerente”, um equatoriano de 45 anos, capturado e extraditado dos Emirados Árabes Unidos em 30 de dezembro. O homem é apontado como responsável pela emboscada em que foram assassinados os 11 militares e por liderar estruturas dedicadas ao narcotráfico, execuções por encomenda e terrorismo. Outros suspeitos de serem membros dos Comandos também foram detidos e o Ministério Público mantém aberto um caso conhecido pelo nome do grupo que envolve “Gerente”, seus dois filhos e sua esposa por lavagem de dinheiro. Todos continuam detidos.

A FRAGMENTAÇÃO DOS GRUPOS

Em 4 de junho do ano passado, um mês após a emboscada que tirou a vida dos 11 soldados, outro batalhão se deparou com pessoas armadas enquanto patrulhava uma área entre La Barquilla e o setor de Puerto Libre, na fronteira com a Colômbia. 

Um comunicado oficial anunciou no dia seguinte que, durante a operação, uma pessoa foi detida, “a mesma afirmou fazer parte da Frente Carolina Ramírez e foi entregue às autoridades para os trâmites legais correspondentes”. Assim, o governo equatoriano deu como certo que a Frente Carolina Ramírez também disputava territórios e rotas nessa região.

O coronel Alexander da Silveira, comandante do Grupo Cabal, em Ipiales, Colômbia, confirmou à Amazon Underworld que existem 32 passagens não formais em toda a linha de fronteira com o Equador que está sob sua jurisdição, que compreende parte da zona andina e uma área amazônica, e duas passagens formais: Rumichaca e Tufiño. “Eram 35, mas com o Exército equatoriano foram destruídas três passagens não formais”, acrescentou o militar colombiano.

Da Silveira falou sobre o encontro entre os militares equatorianos e os homens armados que o Exército equatoriano afirmou serem cerca de 200 membros da Frente Carolina Ramírez. “O grupo com o qual se encontrou um destacamento do Equador que se fazia passar por Carolina Ramírez, já temos plena confirmação de que não eram Carolina Ramírez, mas sim Autodefensas Unidas de Nariño (AUN)”. A versão difere do que foi apontado pelas autoridades equatorianas e fontes locais.

O coronel disse que, de acordo com informações da inteligência colombiana, os chamados AUN são um braço dos Comuneros del Sur, os mesmos que estão negociando a paz. “Esses AUN estão fazendo o que os Comuneros não podem fazer abertamente, de forma direta, para não atrapalhar as negociações com (o presidente colombiano) Gustavo Petro”, explicou.

O oficial informou que a AUN, que operava no norte de Nariño, se estabeleceu em uma zona limítrofe entre os departamentos de Nariño e Putumayo: “Eles mesmos dizem à população civil: ‘somos a AUN e viemos limpar a região’”, acrescentou. 

O mapa de atores armados que Da Silveira usa localiza o grupo Comandos de la Frontera “em direção à Amazônia, ao Putumayo e Sucumbíos”. O militar garante que eles têm “interferência indireta” e alertou que há “uma presença relativamente estável e forte desde o setor de La Pintada, no Equador, até Jardines de Sucumbíos”, na Colômbia, e nas populações equatorianas de Santa Bárbara e La Bonita, o que coincide com os depoimentos coletados naquele território. 

“Toda a pasta base é produzida em Putumayo, pois em Putumayo o clima é propício para o plantio da folha de coca. Toda essa pasta base é levada para o setor de La Victoria, que fica em frente a Santa Bárbara e El Carmelo, e lá, este ano [2025], destruímos cerca de 14 ou 15 laboratórios”, contou. Essa droga, já convertida em cloridrato de cocaína, é passada pelo Equador porque a rota para retirá-la da Colômbia pelo Pacífico, pelo norte, é muito longa. Esses laboratórios facilitam a saída pelo Equador”.

“Temos uma limitação, que é o fato de não termos alcance operacional naquele setor de Putumayo, em Jardines de Sucumbíos. Não podemos desenvolver operações lá porque uma cordilheira nos divide, limitando nosso abastecimento, apoio logístico e comunicações. Por isso, nossa linha operacional chega praticamente até La Bonita”, explicou o oficial.

Paisagem da cordilheira e do sopé dos Andes, na fronteira entre a Colômbia e o Equador, de onde se avista a floresta amazônica. Foto: Diego Cazar Baquero.

Dias após a conversa com Da Silveira, Ángel Polibio Quendi, conhecido como “El Indio”, líder veterano da Frente Iván Ríos, dissidência das Farc pertencente à Segunda Marquetalia, foi capturado em um salão de sinuca na cidade equatoriana de Maldonado, na província de Carchi, por suposto envolvimento com garimpo no Equador e na Colômbia, posse e porte de armas e munições, e extorsão.

Do lado equatoriano, o coronel Milton Santillán, comandante do batalhão de infantaria motorizada nº 39 Major Galo Molina, em Tulcán, reiterou que entre essa cidade e a localidade de Julio Andrade há atividades de tráfico de drogas, extorsões e contrabando. Já no setor de La Barquilla, em Sucumbíos, “mais do que contrabando, há presença e trânsito permanente de grupos guerrilheiros”, confirmou.

A conexão entre a província andina de Carchi e a província amazônica de Sucumbíos depende da Transversal Fronteiriça E10. De Tulcán a Sucumbíos, a extensa rodovia contorna desfiladeiros e montanhas. Em todo o trajeto há apenas um destacamento militar.

Destacamento militar César Villacís, em Sansahuari, Sucumbíos, na fronteira com a Colômbia. Foto: Diego Cazar Baquero.

Sete ou oito soldados perambulavam em volta do posto de controle, quando a equipe da Amazon Underworld passou por ali. Um deles se aproximou — o cano do rifle pendurado nas costas se erguia vários centímetros acima da cabeça, e o uniforme camuflado parecia um ou dois tamanhos maior que o seu corpo —, olhou e perguntou para onde íamos. Com a resposta obtida, soltou um gentil “obrigado, continue”, e se afastou. Era um rapaz. Na casa dos 20 anos, talvez. 

Longe dos controles é que se movem as dinâmicas ilegais na fronteira entre o Equador e a Colômbia, um problema que se agrava e para o qual ainda não existe uma política integral coordenada, que continuará à espera enquanto as tensões diplomáticas e comerciais entre os dois países aumentam.

*Os nomes foram modificados para proteger as fontes.