Floresta adentro, no norte do departamento de Pando, a vegetação parece engolir a estrada. A paisagem se torna mais densa e menos vigiada. Na comunidade de Holanda, um estreito desvio penetra nas entranhas da floresta. É o início de uma estrada vicinal que serpenteia os limites da Reserva Nacional de Vida Silvestre Amazónica Manuripi, que compartilha uma fronteira difusa de 67 quilômetros com o Peru.
Os veículos são escassos nessa estrada. Apenas motocicletas cruzam a mata com frequência, muitas delas levando até quatro membros da família, incluindo crianças. Na mesma estrada, vindos do Peru, também chegam outros visitantes. Eles não vêm em busca de turismo ou familiares. São traficantes de madeira.

“Sim, vendemos madeira para peruanos”, admite um membro da comunidade que prefere não revelar seu nome. Ele faz o comentário sem orgulho ou medo, apenas como algo do cotidiano. “Em triples“, explica ele. Quando lhe perguntamos se o veículo entra na comunidade, a resposta vem sem hesitação: “Ele entra até onde pode. Atravessa o mato”.
Os triples são caminhões grandes com três pares de rodas semelhantes às de tratores. Sua carroceria adaptada é apenas uma plataforma de madeira, sem contenção nas bordas. São veículos militares antigos de origem russa, comprados no Equador e trazidos para o Peru desmontados como sucata. Eles não têm placas nem autorização para circular e são usados para transportar a madeira dos pontos de extração até áreas intermediárias onde ela é armazenada.
Uma vez fechado o acordo com a comunidade, os triples entram na selva com seu sua tração 4×4, resistindo à lama e subindo ladeiras íngremes. Neles estão as pessoas responsáveis pelo corte e carregamento da madeira. Eles levam motosserras, combustível e os chamados “castelos”: uma suporte de metal que une duas motosserras para que cortem simultaneamente. São serrarias móveis que podem transformar uma tora de 40 metros em tábuas em questão de horas. A operação acontece à noite, em grupos pequenos e eficientes. Eles entram, cortam, juntam a madeira em locais conhecidos como “rodeios” e, por fim, a carregam nos triples para retornar ao Peru.
As espécies cobiçadas são: mogno (mara), cedro, carvalho (roble), virola (almendrillo) e cumaru. Muitas delas, como o cedro, o carvalho e a virola, tem extração proibida e se enquadram na Cites.
A Convenção sobre o Comércio Internacional das da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) é um acordo entre governos que visa garantir que o comércio internacional de animais e plantas selvagens não ameace a sobrevivência das espécies. Mas na floresta não há rótulos ou certificados. Apenas árvores e homens com pressa.

Alguns até cruzam os limites da Reserva Manuripi, onde a extração comercial de madeira é totalmente proibida. Mesmo assim, os acampamentos são montados. Os motores roncam. As árvores caem. A lei é apenas um sussurro.
Desde 2005, os guardas-florestais fazem operações para desalojar acampamentos e queimar triples apreendidos. A última foi realizada em 2023, de acordo com um ex-funcionário do Serviço Nacional de Áreas Protegidas (Sernap). Ele nos pediu para não revelar seu nome. Os traficantes colocaram um preço em sua cabeça.
O que eles se arriscam a fazer não é pouco. O transporte de madeira ilegal nas estradas bolivianas deveria envolver a passagem por pelo menos um posto de controle. Mas em toda a estrada percorrida por nossa equipe encontramos apenas dois postos de controle da polícia. O mais próximo das comunidades, em Empresiña, é pouco mais do que uma cabana de madeira com uma corda pendurada que é levantada para dar passagem.
Não há postos de controle. Não há fiscalização aduaneira. E quando não há documentos que comprovem a origem da madeira, o dinheiro faz o trabalho.
Com subornos, os fiscais fazem vista grossa. Tudo isso acontece em um cenário que parece ter sido projetado para o contrabando, onde as árvores valem mais mortas do que vivas.
OS PAPÉIS QUE LAVAM A MADEIRA ILEGAL
O percurso nos levou por estradas na fronteira entre os dois países, que eram pequenas cicatrizes de terra seca em meio à densidade da floresta. Dessas passagens, invisíveis nos mapas de satélite, mas bem conhecidas pelos contrabandistas, saímos para as estradas de asfalto que cruzam as cidades de Iberia, Alerta e Mavila. Foi nas calçadas e ruas empoeiradas dessas localidades que vimos os chamados triples. A terra vermelha espalhada nos pneus denuncia as estradas pelas quais eles trafegam.

Depois de viajar no triple, a madeira é carregada em um caminhão semirreboque e movimentada mediante a obtenção de uma Guia de Transporte Florestal (GTF) falsificada. Quando é legal, essa guia é um documento oficial emitido pelo Estado peruano, que cobre a mobilização de produtos e subprodutos florestais.
Mas nada nesse negócio ilícito é gratuito. Obter uma dessas guias, esse papel que abre as portas para o contrabando, não é uma tarefa simples ou barata. Dois grandes esquemas já foram descobertos pela Fiscalía Provincial Corporativa Especializada en Delitos de Corrupción de Funcionarios, em Madre de Dios, uma procuradoria responsável por fiscalizar crimes de corrupção na região.
O primeiro, em 2020, foi chamado de Los Hostiles de la Amazonía (Os Hostis da Amazônia). Uma rede de extração, armazenamento e transporte de madeira com ajuda interna, cuja organização é dividida em três grupos: os comerciantes, encarregados de corromper funcionários do governo regional, a polícia, a Superintendencia Nacional de Aduanas y de Administración Tributaria de Perú (Sunat) e outros; os “tramitadores” ou lavadores, que obtêm os documentos fraudulentos para que a madeira ilegal possa sair de Madre de Dios; e os funcionários, que em troca de dinheiro não registram a documentação nem verificam o volume ou a espécie da madeira transportada, favorecendo o tráfico ilegal de recursos naturais.A investigação desse caso foi realizada em diferentes fases e em mais de quatro ocasiões, e inclui funcionários de alto escalão da Gerencia Forestal y de Fauna Silvestre de Madre de Dios.
Quatro anos mais tarde, outro caso foi investigado: Los Villanos del Tahuamanu (Os Vilões de Tahuamanu). De acordo com a investigação, essa organização criminosa aperfeiçoou o mecanismo implementado por Los Hostiles de la Amazonía, incorporando documentos de gestão florestal convertidos em passaportes para a impunidade. Guias de transporte, listas de registros, folhas de cubagem, guias de remessa, faturas, entre outros.
A organização criminosa era composta da seguinte forma: um grupo central, responsável pela aquisição, armazenamento e transformação de produtos de madeira de origem ilegal, que também é responsável pelo recrutamento de intermediários, pessoas de poucos recursos econômicos, cujas identidades são usadas nas guias de transporte florestal, onde aparecem como supostos compradores e/ou vendedores para evitar o pagamento de impostos devidos pelos compradores de madeira; os facilitadores, pessoas com concessões autorizadas para extrair produtos madeireiros, que fornecem documentos públicos aos líderes; os funcionários públicos, cujo papel é o mesmo de Los Hostiles de la Amazonía; e os compradores finais reais da madeira extraída ilegalmente.

A investigação ainda cita um grupo encarregado de cortar a madeira da Bolívia e transportá-la para o Peru. De acordo com os documentos, essas pessoas podem ser previamente financiadas pelos líderes da organização criminosa para entrar e retirar a madeira das florestas bolivianas, ou podem se envolver na atividade por conta própria e vendê-la ao grupo central. São pessoas que vivem em Alegría, Mavila, Alerta e San Lorenzo.
Ambos os grupos operaram em Madre de Dios com a cumplicidade de funcionários públicos que deveriam proteger a floresta, mas acabam lavando toras derrubadas ilegalmente que, graças a documentos falsos, se tornaram madeira legal que acaba vendida e rotulada com assinatura e carimbo.
De acordo com a investigação a que tivemos acesso, é assim que eles fazem: compram as guias de concessões legítimas, daquelas que ainda têm volume de corte autorizado. Depois, com a cumplicidade de técnicos florestais, preenchem cada informação como se estivessem descrevendo árvores reais. Nome científico, quantidade, volume, ponto de origem.
Tudo supostamente em ordem, no papel. Mas a madeira que os triples transportam não vem dessas áreas autorizadas, mas sim do interior, de áreas onde a floresta ainda não sabe que foi vendida.
AS JORNADAS DA MADEIRA
A investigação dos Los Villanos del Tahuamanu também revela que parte da madeira boliviana, geralmente de espécies comuns – como cachimbo, copaíba, embaúba (bolaina), cumala, e espécies locais como a capirona, ishpingo (uma espécie de canela amazônica) e a sumaúma (lupuna) – chega aos mercados peruanos em Cusco, Puno e Amancay. Mas as espécies de maior valor, como mogno, cedro e carvalho, não conhecem fronteiras e viajam em contêineres para destinos tão distantes quanto China, Estados Unidos, Vietnã, França, República Dominicana, Dinamarca, Bélgica e Nova Zelândia.
Entre as empresas citadas na investigação por comprar madeira de origem ilegal e exportá-la estão a Cumarú Maderas SAC, citada na investigação por exportações de 2022, mas que em 2024 exportou para a China, França, República Tcheca; a Arbe Lumber SAC que, embora suspensa pela Sunat por falta de atividade ou descumprimento de obrigações tributárias, tem registros de exportações que chegam a US$ 1,7 milhão. Também suspensa pela Sunat está a Mafer Export Lumber SAC, cujas exportações revelam um total de 6 remessas enviadas para a China, EUA e República Dominicana. Finalmente, a empresa Mikarh sociedad anónima cerrada registra exportações para a França, China e Vietnã no valor de mais de US$ 4,4 milhões. Essa empresa foi multada por comprar produtos florestais de origem ilegal.
Amazon Underworld tentou entrar em contato com os representantes legais da Cumarú Maderas SAC, Arbe Lumber SAC e Mafer Export Lumber SAC, mas não recebeu resposta.
Com relação aos destinatários finais da madeira, eles geralmente não são acusados nas investigações devido ao uso da figura dos “compradores de boa fé”. De acordo com esse princípio, as empresas argumentam que, ao adquirirem a madeira e verificarem que ela possui documentação que comprova sua origem legal, elas confiam no vendedor, embora uma investigação da Global Witness tenha revelado que, na realidade, elas sabem ou suspeitam que se trata de madeira extraída ilegalmente.
De acordo com o site da Plataforma Florestal do Peru, entre janeiro e agosto de 2024, os embarques de madeira totalizaram quase US$ 55 milhões. Mais da metade foi de madeira serrada fina.
Essas madeiras nobres, procuradas por sua cor, dureza e brilho, são as várias espécies de cedro (Cedrela spp.) ou o agora cada vez mais procurado shihuahuaco (Dipteryx micrantha, uma madeira amazônica extremamente dura) – ou uma de suas quatro espécies conhecidas na Bolívia como cumaru ou almendrillo – estão incluídas no Apêndice II da Cites. A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) lista a Cedrela odorata, uma das espécies mais comercializadas, como “Vulnerável” e o shihuahuaco como “Criticamente em Perigo”, a categoria mais grave de ameaça.
O auditor florestal Ricardo Estrada sabe disso. “Depois do mogno, que é quase inexistente, essas espécies são as mais procuradas”, diz ele. “O que eu me pergunto é: como eles ‘lavam’ as licenças Cites? Esses documentos são difíceis de obter. Exigem inspeção, assinatura e fotografia. E mesmo assim eles saem”. Documentos da Proética, o capítulo peruano da Transparência Internacional, apontam para uma direção semelhante. Desde 2005, ela compila informações sobre “Planos de Manejo Florestal (PMF) aprovados com informações falsas ou inexistentes sobre árvores pelas autoridades florestais”. Os dados disponíveis no site Maderalegal.pe revelam vários casos de árvores que nunca existiram, volumes inflacionados, áreas declaradas como produtivas onde não há nada mais do que terra nua. Uma concessão florestal está até mesmo registrada como uma operação de mineração.
ENFRENTANDO OS TRAFICANTES
Sentada à sombra de uma árvore em um subúrbio de Puerto Maldonado, Usmilda Rosambite segura uma pilha de papéis e jornais com as duas mãos. Eles são o testemunho de uma condenação que nunca se concretizou, de uma impunidade que se tornou a sombra que persegue esses cantos da Amazônia peruana. As provas que ela segura contam como os traficantes de madeira mataram seu marido, o tenente-governador Julio García Agapito, em 26 de fevereiro de 2008. No Peru, o tenente-governador é uma liderança local normalmente designada pelas autoridades eleitas, que atua como ponte entre o Estado e a população de uma região.
O relato do crime está nos jornais, mas Usmilda não olha para eles. A história, como um eco que se repete em sua memória, ela já a contou centenas de vezes, buscando justiça para seu marido e reparações para sua família. Só raramente ela olha para aqueles fragmentos de papel, verificando os números.
O carregamento de madeira é apreendido, e o tenente-governador é chamado para dar maior legalidade. Enquanto eles estão elaborando o relatório de apreensão, o proprietário da madeira chega, mas não apresenta nenhum documento ou autorização.
“Ele invade o escritório, ameaça os técnicos florestais e acaba matando meu marido. Ele disparou 11 tiros, 8 dos quais atingiram o corpo do meu marido… E eles o mataram”
— usmilda Rosambite
Em Alerta, a pequena cidade atravessada pela sinuosa Rodovia Interoceânica onde o crime ocorreu, nem todos ficaram chocados. Algumas vozes comemoraram o assassinato de Julio, que havia declarado uma guerra contra o contrabando de madeira. “Ainda bem que o mataram, ele não os deixaria trabalhar”, diziam alguns. “Mas como eles trabalhavam? De forma ilegal. As pessoas não se dão conta disso”, questiona Usmilda, com os olhos fixos no chão e a voz trêmula.
Nessa operação, foram apreendidos 3 m³ de mogno (Swietenia macrophylla) da Bolívia, uma espécie protegida desde 2002 pelo Anexo II da Cites.
Já 17 anos se passaram e, de acordo com Usmilda, nada mudou na região. O contrabando de madeira continua, alimentado por grupos criminosos que seguem operando nas sombras da floresta amazônica, invisíveis, mas presentes nessa área de fronteira entre a Bolívia e o Peru, que parece presa no mesmo ciclo da fatídica história.
TEMPOS DIFERENTES, A MESMA IMPUNIDADE
Entre 2020 e 2025, pelo menos seis operações realizadas em território boliviano, com a participação da Autoridade de Controle Social e Fiscalização de Florestas e Terras (ABT), do Exército e de guardas florestais da Reserva Manuripi, mostraram sinais claros de que a madeira está atravessando a fronteira. No entanto, a Procuradoria Departamental de Pando só apresentou acusações formais em um caso. Foi em 2021. Quatro peruanos foram pegos derrubando árvores de Palo María (espécie amazônica conhecida no Brasil como jacareúba ou guanandi) – toras de 14, 15 e até 17 metros – dentro da área protegida. Apenas dois foram condenados a 2 anos de prisão. Eles foram libertados em 2022. Desde então, ninguém foi processado por esses crimes.
No lado peruano, uma operação realizada em 2022 pela Subgerência de Controle, Supervisão e Vigilância Florestal e de Fauna Silvestre de Madre de Dios na localidade de Shiringayoc, muito perto da fronteira com a Bolívia, encontrou um carregamento monumental: 142m³ de madeira – mais da metade dela de cedro protegido pela Cites –, uma quantidade capaz de cobrir até 5.000 m² de área. “Era uma variedade que não existe mais no Peru”, disse um dos funcionários envolvidos na apreensão.
Por motivos de segurança, ele preferiu o anonimato. “Era imperativo terminar antes do anoitecer nessa zona vermelha, conhecida não apenas pelo tráfico de madeira, mas também pelo movimento de drogas”, acrescentou a fonte.
Em fevereiro de 2025, o conflito assumiu a forma de perseguição. Uma denúncia anônima levou as autoridades bolivianas à comunidade de Alta Gracia, no município de Filadelfia, às margens do rio Manuripi. Lá, um acampamento peruano havia estabelecido operações com um caminhão triple já carregado com tábuas de cedro e carvalho. Ao serem descobertos, os traficantes fugiram. Androcles Puerta, diretor da ABT em Pando, liderou a operação junto com dois soldados e outras autoridades. A advertência à comunidade foi clara: “se não entregarem o caminhão triple, eles se tornarão cúmplices”, explicou Puerta.
A viagem do caminhão apreendido até Cobija foi uma odisseia. Na comunidade de Espiritu, os traficantes, acompanhados por dois pistoleiros do mesmo grupo, bloquearam a estrada com cerca de 20 pessoas.
“A única opção para evitar uma tragédia foi gritar que o caminhão não tinha freios. Depois, em Soberanía, eles tentaram um novo ataque. Dessa vez, os pistoleiros se esconderam no mato”.
— Androcles Puerta.
E no posto de controle de Empresiña, foi a própria polícia boliviana que tentou prender a equipe por não ter identificação visível. Puerta interpretou isso como um encobrimento: os peruanos haviam passado sem serem revistados.
A pressão não cessou. Os traficantes insistiram em sua tentativa de recuperar o triple. Tive que dizer a eles que era melhor recuarem, pois a notícia de que a operação tinha tido troca de tiros já havia chegado ao Alto Comando Militar e que grupos de elite estavam chegando a todas as fronteiras”, disse Puerta. Só assim a perseguição acabou.
“Não é possível que nas comunidades as pessoas atuem como cúmplices de estrangeiros, que a polícia, em vez de colaborar com as instituições, coopere com a ilegalidade”, disse ele. Para ele, o apoio militar é crucial, mas insuficiente para proteger toda a fronteira. Não podemos portar armas e nosso trabalho é arriscado”, concluiu.
Três meses depois, em 14 de maio de 2025, uma nova operação em Bolpebra, a poucos metros da fronteira com o Peru, confirmou que nada havia mudado. A ABT apreendeu cerca de 35m³ de madeira, duas motocicletas e um “castelo”. Eles também encontraram um centro de armazenamento ilegal. Mais castelos. Mais evasão. Ninguém foi preso. Os operadores fugiram sem deixar rastros.
Em ambos os casos, tudo o que restou foram os objetos: o triple, os “castelos”, os caminhões. Testemunhas mudas da tentativa fracassada de traficar mais uma vez a valiosa madeira das florestas bolivianas. Esses carregamentos não chegaram ao seu destino, mas isso não impediu a impunidade.
Hoje, outros triples – idênticos, intactos – ficam à vista de todos nas garagens de Mavila e Alerta, no lado peruano. Ninguém toca neles. Mas eles estão lá, prontos para a próxima viagem. Em silêncio. Esperando para entrar e sangrar a floresta amazônica boliviana.
DE ONDE VEM A ÁRVORE VERIFICADA?
No Posto de Controle Florestal “El Triunfo”, na entrada de Puerto Maldonado, três funcionários da Gerência Regional de Florestas e Vida Selvagem de Madre de Dios (Gerfor) são responsáveis por controlar os veículos que transportam madeira. Enquanto conversamos com o gerente do posto, do lado de fora os motoristas de caminhão aguardam os oficiais com seus motores ligados, vibrando com um rugido baixo. O sol bate incansavelmente, as sombras são finas.
Lá dentro, em um canto do escritório, dois jovens funcionários movem os dedos rapidamente sobre as teclas de suas calculadoras e, com a outra mão, apontam para os números dos documentos em análise. O terceiro, Francis Antelo Chalco, assume o papel de anfitrião.
“A guia é tudo”, diz ele. Se tudo estiver certo no papel”, explica, “não temos como saber se a madeira veio de uma concessão legal ou de um parque nacional boliviano”.
“Como posso, no posto de controle, saber que uma carga é ilegal, se tudo na guia de remessa está em ordem: recibos, faturas, e o produto verificado coincide com o declarado? Aqui não podemos verificar onde a madeira declarada foi extraída, a menos que haja uma denúncia”. O funcionário admite que, graças a denúncias anteriores, veículos com carregamentos ilegais foram interceptados.
Somente em fevereiro deste ano, El Triunfo registrou o controle de 490 caminhões de madeira. Quase 500 oportunidades para que uma árvore derrubada ilegalmente na Bolívia se misture com árvores extraídas legalmente em concessões peruanas.
AS ROTAS SUBTERRÂNEAS
Um ex-fiscal florestal em Madre de Dios, falando sob condição de anonimato, revelou que a ilegalidade é organizada de duas maneiras: à noite ou por meio de suborno nos postos de controle peruanos. No entanto, ele considera que a grande fraqueza está do lado boliviano: a quase total falta de postos de controle florestal. Uma das rotas pelas quais a madeira é transportada liga San Lorenzo (Peru) à cidade boliviana de Extrema, passando pela Rodovia Interoceânica. A outra liga Shiringayoc (Peru) a Soberanía (Bolívia). Ambas são bem conhecidas. Ambas são movimentadas. Na primeira, a Aduana Nacional da Bolívia ordenou a criação da Administração Aduaneira da Fronteira Extrema em 2022, de acordo com a Circular 179/2022. Mas esses escritórios nunca entraram em operação.
Em Shiringayoc, o posto policial parece mais uma promessa do que uma barreira: dois jovens com uniformes velhos e rostos queimados pelo sol vigiam de um banco. Um deles nos cumprimenta com um olhar evasivo, negando que mercadorias ilegais, como madeira, passem por essa rota. Seu companheiro, mais reservado, observa silenciosamente da sombra de um telhado de zinco.
– Os controles são durante o dia – diz o policial, enquanto ajeita nervosamente o boné. – É um pouco perigoso à noite.
Nossa equipe questiona:
– Perigoso por quê?
– Por causa das plantações. A coca – ele responde, quase em um sussurro. – Você não pode se arriscar. É melhor você vir amanhã e falar com o chefe.
De acordo com as informações compartilhadas pelo ex-fiscal, há de fato plantações de coca identificadas por agentes de inteligência em operações secretas em Shiringayoc e, embora não tenha sido demonstrado um vínculo direto entre o tráfico de drogas e a extração ilegal de madeira, eles compartilham a rota. As rotas descritas para o transporte de madeira entre a Bolívia e o Peru são as mesmas usadas pelos traficantes de drogas para transportar suas mercadorias para a Bolívia e para o Brasil. A Rodovia Interoceânica tornou-se uma zona vermelha, especialmente perigosa à noite, quando é controlada por esses grupos.
Manuel Calloquispe, jornalista peruano especializado em política regional e conflitos socioambientais, afirma: “Nos últimos três anos, surgiram plantações de coca na fronteira entre o Peru e a Bolívia, e também foram encontrados laboratórios para a produção de pasta de cocaína, até mesmo um aeroporto clandestino localizado na fronteira boliviana. Em outras palavras, a economia ilegal está causando um enorme confronto com a economia sustentável que ainda temos em Madre de Dios”.
Puerta afirma que em Pando há pelo menos dez passagens irregulares de fronteira para o Peru, conhecidas como “trochas”, mas em 2018 a polícia boliviana identificou pelo menos 25 passagens ilegais de fronteira . no departamento de Pando
O orador é Juan Carlos Grifa, presidente da Federação Departamental de Castañeros de Madre de Dios (FEPROCAMD) e ex-prefeito do distrito de Tahuamanu. Grifa continua sem rodeios: “Eles não querem se formalizar. Então, o que o cidadão peruano ou boliviano faz na fronteira? Para sobreviver, ele faz um negócio com o que tem em sua floresta. Ele não se importa se é formal ou informal. O importante é que ele tenha seu dinheiro para sobreviver…”
A declaração de Grifa não aponta o dedo da culpa com raiva, mas com resignação. Sua voz fala de dois estados que não chegam a tempo, ou nunca chegam.