Faltando poucos dias para a posse do novo presidente na Colômbia, o 7 de agosto, nesta coluna de opinião o especialista Adam Isacson analisa três das propostas de Abelardo de la Espriella, apoiadas pelo governo Trump, que ameaçam ser um desastre para a Amazônia colombiana, e apresenta um caminho alternativo que ainda é possível.
Por Adam Isacson, diretor do programa de Supervisão da Defesa no Escritório em Washington para Assuntos Latinoamericnos (WOLA)
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo De la Espriella, um populista de direita eleito por uma margem estreita em 21 de junho, promete uma enxurrada de projetos petrolíferos, de mineração e agroindustriais, e afirmou que seu governo fará “fracking à vontade”, numa referência ao fraturamento hidráulico, uma técnica para extração de petróleo e gás natural. Além disso, ele conta com o apoio entusiasmado do governo de Donald Trump, em Washington, que busca intensificar o combate contra o que chama de “narcoterroristas”. O que isso representa para o frágil e deteriorado ecossistema amazônico?
A Colômbia, o segundo país mais populoso da América do Sul, tem a Amazônia ocupando 42,3 % de seu território. O sudeste do país, pouco povoado, é composto por florestas e savanas de uma biodiversidade impressionante, que geram água doce, capturam milhões de toneladas de carbono da atmosfera e têm sido o lar de povos indígenas há milênios.
A Colômbia já perdeu pouco mais de 3,3 milhões de hectares de floresta — uma área equivalente à da Bélgica —, e o problema se agravou após a assinatura do Acordo de Paz de 2016 entre as FARC e o governo colombiano, uma vez que os grupos armados da região se fragmentaram e passaram a incentivar o desmatamento.
Assim como seus vizinhos, a Colômbia já conta com leis razoavelmente bem elaboradas para proteger sua Amazônia. No entanto, o cumprimento dessas leis depende em grande parte da vontade política do governo em exercício.
A Colômbia passa hoje por uma transição para um novo governo. O presidente eleito De la Espriella afirma que deseja acelerar a extração de recursos e intensificar uma campanha militar contra a crescente lista de grupos armados e criminosos do país. Sua retórica ecoa a que foi ouvida em outra nação que passou por uma mudança radical de governo no ano passado: os Estados Unidos, o aliado mais próximo da Colômbia, seu principal parceiro comercial e sua principal fonte de ajuda externa.
Três das propostas de De la Espriella, apoiadas pelo governo Trump, ameaçam ser um desastre para a Amazônia colombiana.
Em primeiro lugar, o presidente eleito quer abrir áreas até agora intocadas para perfuração, mineração, fraturamento hidráulico, monocultura e outras atividades extrativistas, todas facilitadas pela construção de novas estradas e oleodutos. Ele propõe ampliar a fronteira agrícola — a área do país onde terras não cultivadas são transformadas em áreas de cultivo — em quase 1,5 milhão de hectares em apenas quatro anos. Isso equivale a 1,3% do território nacional, uma área do tamanho do estado estadunidense de Connecticut.
Em segundo lugar, De la Espriella defende veementemente uma ofensiva militar de alcance nacional contra o crime organizado. É verdade que a Colômbia precisa se livrar de seus grupos armados e criminosos, cujo efetivo combinado aumentou, segundo estimativas, 23% entre 2024 e 2025. Eles estão entre os principais responsáveis pelo desmatamento, pela contaminação de fontes hídricas e pelo deslocamento de povos indígenas. Em um momento em que a onça de ouro está cotada acima de US$ 4.000, os cartéis, gangues, ex-guerrilheiros e grupos paramilitares da Colômbia podem estar obtendo, com a mineração e o desmatamento ilegais, receitas pelo menos comparáveis às do tráfico de drogas.
De acordo com o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) e a Procuradoria-Geral da Colômbia, cerca de 85% das exportações de ouro do país provêm de atividades ilícitas. Trata-se, principalmente, de mineração a céu aberto ou aluvial que — muitas vezes com a cumplicidade de funcionários corruptos — opera em plena luz do dia e despeja quantidades alarmantes de mercúrio e outros contaminantes em rios que antes eram limpos.
A liberdade com que os grupos criminosos da Colômbia operam e se enriquecem representa um desafio gigantesco. O governo Trump definiu o fenômeno do crime organizado no hemisfério — ao qual chama de “narcoterrorismo” — como uma das principais ameaças à segurança dos Estados Unidos. Acrescentou 18 grupos latino-americanos e caribenhos à lista de Organizações Terroristas Estrangeiras do Departamento de Estado, elevando o total para 22. Sob o nome de uma coalizão política denominada “Escudo das Américas” e de uma iniciativa militar batizada de “Coalizão das Américas contra os Cartéis”, a Casa Branca e o Departamento de Defesa oferecem ajuda militar em todo o hemisfério e instam os governos a conceder às tropas americanas um papel mais ativo e presencial em operações ofensivas dentro de suas próprias fronteiras.
Mas chamá-los de “narcoterroristas” e enviar tropas para matá-los não detém o crime organizado: isso já foi tentado desde o início da guerra contra as drogas. Até mesmo os chefões mais lendários foram eliminados ou extraditados para prisões americanas e, mesmo assim, o problema só tem se alastrado. O crime organizado é mais difícil de combater do que as guerrilhas ou os “terroristas” porque, na verdade, prefere não enfrentar os governos. Embora ataque caso se sinta encurralado, seu modelo de negócios depende de o Estado fazer vista grossa. Isso implica corromper e infiltrar-se no governo em todos os seus níveis, deixando-o indefeso e seus líderes sem saber em quem confiar dentro de seu próprio aparato estatal.
Isso é agravado pela impunidade de que têm desfrutado os funcionários públicos corruptos, enquanto promotores, investigadores e juízes — sobrecarregados e com recursos insuficientes — mal conseguem enfrentar o problema. A luta contra o crime organizado não dará certo sem um setor judiciário robusto que lidere o combate à corrupção. Dar rédea solta às Forças Armadas e enviá-las para o embate, sem um plano claro para conter a conivência do Estado com os criminosos, não “resolve” o crime organizado.
Quando enfrentados, esses grupos se fragmentam, se reorganizam e se deslocam para novos territórios: um desfecho que pode ser desastroso — como atiçar um vespeiro gigante — em regiões instáveis como as fronteiras da Colômbia com o Equador e a Venezuela.
Uma escalada militar unilateral, se não vier acompanhada por uma reforma judicial e outras formas de governança, corre o risco de gerar ainda mais violações dos direitos humanos, incluindo mais ameaças contra aqueles que lutam pacificamente para preservar a Amazônia. A Colômbia já é o país mais perigoso do mundo para os defensores do meio ambiente, e essa ameaça se agravará se um governo que avalia mal seu inimigo decidir intensificar a violência.
Em terceiro lugar, De la Espriella pretende retomar a pulverização aérea das plantações de coca, um arbusto de crescimento rápido cultivado principalmente por pequenos agricultores, que processam minimamente as folhas e vendem o produto a traficantes, que depois o refinam e o transformam em cocaína. O presidente eleito propõe atacar o elo mais fraco da cadeia de abastecimento da cocaína, aplicando herbicidas a partir de aeronaves sobre o território da bacia amazônica, bem como sobre outras regiões do país.
O governo Trump apoia essa medida com entusiasmo. Entre 1994 e 2015, ano em que o programa foi suspenso devido a preocupações com a saúde pública, os Estados Unidos apoiaram um programa de pulverização com glifosato a partir de aeronaves de pequeno porte, que, segundo relatos, eliminou 1,8 milhão de hectares de coca. Durante esses anos, o cultivo estimado de coca na Colômbia caiu de um pico de 163.300 hectares no ano 2000 para 48.000 em 2012. Para alcançar essa redução de 115 mil hectares em 12 anos, a Colômbia teve que pulverizar 1,5 milhão de hectares e erradicar manualmente mais 417.200 hectares.
Ou seja, uma proporção de quase 17 hectares erradicados para cada hectare efetivamente reduzido, o que implica um replantio considerável. Em um vácuo quase total de presença estatal e sem alternativas econômicas viáveis, os agricultores costumavam se deslocar para longe das aeronaves pulverizadoras e derrubar mais floresta.
Agora, Abelardo De la Espriella exige a pulverização aérea de todos os 330 mil hectares de coca que ele estima estarem plantadas atualmente na Colômbia (261 mil, de acordo com os dados oficiais de 2024). O Tribunal Constitucional colombiano estabeleceu requisitos importantes que devem ser cumpridos antes do início de uma nova campanha de pulverização aérea, como estudos de impacto ambiental e consultas às comunidades indígenas e afrodescendentes. De la Espriella interpreta que essas restrições se aplicam exclusivamente à pulverização com glifosato e propõe, em vez disso, pulverizar “bioherbicidas” — micróbios, fungos ou extratos vegetais — que poderiam alterar de forma catastrófica os frágeis ecossistemas amazônicos.
Para os camponeses que cultivam coca com renda pouco acima do limiar da pobreza, De la Espriella propõe oferecer apoio para a substituição por culturas lícitas. Mas o presidente eleito também exige um corte de 40% nos gastos públicos, o que torna difícil imaginar um esforço significativo de presença estatal nas áreas sem governo colombiano onde se cultiva a coca.
Existem alternativas mais promissoras a essas três propostas arriscadas. A Colômbia precisa de uma política energética renovável própria do século 21, em vez de mais extração de combustíveis fósseis, típica do século 19. Ela poderia se associar à iniciativa privada em uma mineração sustentável, transparente e regulamentada que não cause danos, ao mesmo tempo em que persegue de forma decidida não apenas a mineração ilegal, mas, sobretudo, a conivência dos funcionários públicos corruptos que a tornam possível. Proteger os territórios sem governo onde se cultiva a coca, bem como os parques e as reservas naturais, exige estabelecer uma presença estatal integral que vá muito além das patrulhas ocasionais de soldados que hoje transitam por esses locais.
Não deveríamos pré-julgar as políticas de Abelardo De la Espriella antes de ele assumir o cargo. Ele ainda pode se afastar de sua retórica mais exagerada e de suas soluções mais simplistas diante dos desafios da Colômbia. Apesar de ele ter assessorado e defendido figuras do crime durante sua carreira como advogado, ainda dá tempo de ele impulsionar uma forte luta judicial contra a cumplicidade oficial com os criminosos.
Durante sua “lua de mel” — que pode ser breve —, o novo presidente ainda pode optar por essas abordagens mais acertadas para deter e reverter a destruição da Amazônia colombiana. Isso seria muito mais promissor do que uma campanha de mão pesada que continue a corroer a Amazônia enquanto repete os erros do passado na luta contra o crime organizado.