A história da Venezuela é marcada pela abundância de recursos naturais estratégicos e pela exploração desses recursos por agentes estrangeiros. Atualmente, a atenção internacional está voltada para o petróleo, mas há outros recursos em disputa. Em nossa investigação O preço do progresso: O lado sombrio dos minerais críticos na Amazônia mostramos um objetivo ao qual Washington dá muita atenção: as areias negras.
A novidade está nos atores internacionais envolvidos e na diversidade dos minerais. O sul da Venezuela, cujo solo possui grandes reservas desses materiais cobiçados, está sendo explorado sob o domínio de grupos armados colombianos, principalmente pelo Exército de Libertação Nacional (ELN).
De acordo com depoimentos de indígenas, moradores e mineradores locais, o que é extraído é dividido principalmente entre o ELN, as forças armadas e traficantes internacionais, por eles chamados de “chineses”. Eles afirmam que estes últimos chegam de helicóptero às minas, escoltados pelo grupo armado, para levar “toneladas” de material por via aérea.
A China não só possui as maiores reservas de elementos de terras raras do mundo, como também é o principal destino dos minerais críticos venezuelanos. Embora a maior parte seja exportada por meio de empresas estatais, uma porcentagem significativa, antes de ser enviada, é contrabandeada para a Colômbia, onde é legalizada com dados fraudulentos, beneficiando grupos armados e funcionários públicos corruptos. Além disso, os chineses possuem 91% da capacidade de processamento desse material, o que confere ao país um enorme poder geopolítico: mesmo que outros países extraiam os elementos de terras raras, eles precisam enviá-los à China para serem processados.
Por sua vez, o governo Trump deixou clara sua intenção de ter acesso a essas matérias-primas. Em um corredor do Air Force One, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, declarou sobre a Venezuela: “Eles têm aço, têm minerais, certo? Todos os minerais essenciais. Eles têm uma grande história de mineração que ficou enferrujada”, e o secretário de Energia, Chris Wright, destacou, durante sua recente visita a Caracas, a presença de “imensos” recursos naturais também em referência aos minerais do país.
Eles também tornaram público seu desejo de domínio territorial sobre a Groenlândia, outro país com extensas reservas de minerais críticos, e assinam importantes investimentos no setor de refino de terras raras. Os minerais críticos, cruciais para o setor de defesa e inteligência artificial, dariam ao país uma vantagem geopolítica.
À medida que avança a corrida pelos minerais críticos, a Amazônia está cada vez mais ameaçada. Estamos falando de biodiversidade, segurança, autodeterminação e direito à vida. Aqueles que extraem o material estão em uma espécie de escravidão moderna; mineradores e membros de comunidades indígenas na Venezuela descrevem circunstâncias desumanas, pagamentos indignos, trabalho forçado, exploração sexual, castigos corporais, restrição de mobilidade, prisões cercadas com arame farpado no meio da selva e execuções sumárias.
Embora historicamente o ELN tenha sido um aliado do chavismo, para a presidente interina Delcy Rodríguez, o grupo poderia se tornar um obstáculo aos novos interesses estratégicos entre Caracas e os Estados Unidos, já que grande parte da receita da extração mineral vem de áreas onde a guerrilha divide os lucros de maneira extraoficial com as forças de segurança do Estado, e quantidades significativas desses minerais saem do país por rotas não oficiais.
Do outro lado da fronteira, o ELN acaba sendo uma força incômoda para outro presidente, Gustavo Petro, cuja equipe de negociação de paz não conseguiu obter sucesso na mesa de diálogo, enquanto aumentavam as hostilidades em áreas controladas pelo grupo. Como a segurança no interior da Colômbia recuou durante seu governo, ações militares contra o ELN poderiam permitir que Bogotá demonstrasse a seus cidadãos que, além de oferecer a cenoura, também usa o chicote.
Para ambos os países, ações militares dirigidas contra o ELN poderiam ser bem-vindas e, surpreendentemente, estão na agenda de Washington. Poucos acreditariam que Trump esteja realmente interessado nos esforços de construção da paz na Colômbia ou que esteja ativamente buscando o ELN, mas sem dúvida ele poderia usar o argumento da luta contra o narcotráfico para tentar eliminar esse obstáculo à obtenção dos minerais críticos e da infraestrutura petrolífera que ele tenta reviver, algo que fica evidente nos frequentes ataques a oleodutos na Colômbia como forma de extorsão.
Quando Petro visitou a Casa Branca, em 3 de fevereiro, em um encontro inesperado entre dois inimigos políticos, discutiu-se o combate ao ELN sob a bandeira de operações contra o narcotráfico. Um bombardeio contra o ELN em Catatumbo ocorreu no mesmo dia. É provável que as extensões dessas ações em Catatumbo e Arauca tenham prioridade, mas a Amazônia também está na agenda, incluindo operações na faixa fronteiriça.
Para Petro, esta reunião é uma declaração contundente em matéria de segurança no final de seu governo e uma forma de contrariar aqueles que o criticam por se distanciar de um grande aliado geopolítico. Para Trump, representa uma possibilidade de impulsionar ações militares contra um grupo que ele responsabiliza pelo narcotráfico e que está assentado sobre importantes reservas de recursos naturais.
Qualquer investidor enfrentará obstáculos legais, éticos e socioambientais. Além disso, deverá considerar sérias limitações logísticas devido à falta de infraestrutura e riscos de segurança em áreas com presença de grupos criminosos e movimentos guerrilheiros que constam nas listas de sanções dos Estados Unidos.
Ou seja, se as empresas americanas quisessem realizar atividades de mineração diretamente, é certo que grupos armados nacionais e estrangeiros tentariam deter, extorquir ou atacar essas empresas, desencadeando uma nova onda de violência que inevitavelmente afetaria os povos indígenas e seus ecossistemas, que ficariam novamente presos em toda essa luta pelo poder. E se, em vez disso, preferissem comprar diretamente de empresas estatais venezuelanas, estariam adquirindo minerais provenientes de minas ilegais onde, há anos, são cometidas graves violações dos direitos humanos e financiariam indiretamente grupos armados, incluindo o ELN.
Para as comunidades indígenas mergulhadas em crise, particularmente no contexto do colapso econômico venezuelano, a extração ilícita de minerais tornou-se uma tábua de salvação econômica. Mas existem alternativas. Nenhuma comunidade convidou grupos armados, traficantes ou multinacionais estrangeiras para ocupar seus territórios. Esses atores chegaram para explorar lacunas institucionais, não para responder às necessidades locais.
É urgente e fundamental ouvir as vozes daqueles que vivem nesses territórios e entender o que eles buscam para seu próprio desenvolvimento. Muitas comunidades acumulam necessidades urgentes, algumas poderiam até considerar a mineração de subsistência como um caminho para o progresso, mas sob condições radicalmente diferentes das impostas pelo ELN ou pelas redes criminosas transnacionais.
O problema de fundo é que nem Caracas, nem a guerrilha colombiana, nem Washington demonstraram intenção de dialogar com as comunidades e, enquanto as forças externas envolvidas continuarem a ver as Amazônias colombiana e venezuelana como um tabuleiro geopolítico ou uma reserva de minerais críticos, enquanto continuarem a ignorar deliberadamente que seus habitantes são atores agentes, qualquer estratégia estará inevitavelmente condenada ao fracasso.
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Este artigo foi originalmente publicado no diario El País, da Espanha, em 20 de fevereiro de 2026.