A sequência de bombardeios contra supostos traficantes de drogas que se deslocam pelo Mar do Caribe e pelo Oceano Pacífico, juntamente com os exercícios militares conjuntos entre os Estados Unidos e Trinidad e Tobago, redirecionaram os traficantes e suas cargas cada vez mais para rotas que atravessam a bacia amazônica. “Ouvem-se essas motos e motores pelo rio e são eles que andam à noite para passar suas mercadorias ilícitas!”, exclama uma fonte do município de Maroa, Venezuela, sobre o aumento do tráfico de drogas no Rio Negro. As novas dinâmicas aumentam as pressões do narcotráfico em territórios indígenas e rotas clandestinas da selva, algumas das quais já se tornaram grandes corredores do tráfico nos últimos anos.

No dia 2 de setembro, o governo Trump anunciou o primeiro “ataque letal” contra uma embarcação que supostamente operava para o tráfico de drogas. Washington afirma que as operações de tráfico são dirigidas por Nicolás Maduro e seu governo e, além disso, culpa o crime organizado venezuelano, como o Tren de Aragua e o suposto Cartel dos Soles, acusações que são questionadas por especialistas devido à falta de evidências sobre a magnitude dos movimentos de drogas e as estruturas operacionais das organizações acusadas.
O primeiro ataque foi precedido por uma retórica cada vez mais agressiva contra atividades criminosas da Venezuela durante o mês de agosto. Os Estados Unidos classificaram as supostas atividades de tráfico de drogas do governo Maduro como uma “ameaça à nossa segurança nacional” e enviaram tropas para o Mar do Caribe. Entre 2 de setembro e 18 de dezembro, os Estados Unidos realizaram 26 ataques militares no Caribe e no Pacífico, onde morreram pelo menos 99 pessoas. Inicialmente, os ataques ocorreram no Mar do Caribe contra embarcações próximas à Venezuela, mas os bombardeios de navios na costa da Colômbia e do Equador se tornaram cada vez mais frequentes..
Parentes dos sobreviventes denunciam que, durante a operação, pescadores inocentes também foram atacados e um dos efeitos colaterais é que muitos trabalhadores da indústria pesqueira preferiram não sair para trabalhar.
“Está ficando complicado para eles viajarem pelo norte do Caribe em barcos e aeronaves, como era habitual, e chegarem em trânsito a essas ilhas do Caribe, incluindo a República Dominicana”, disse um alto funcionário colombiano de segurança.
A operação de Washington na rota caribenha do narcotráfico é questionada especialmente porque o Mar do Caribe não tem sido um grande corredor de cocaína para os Estados Unidos. O Comando Sul dos Estados Unidos — o comando do Departamento de Defesa responsável pelas operações militares americanas na América Latina e no Caribe (exceto o México) — publicou que 80% das drogas destinadas ao país são transportadas da Colômbia e Equador, pelo Pacífico.
A própria Venezuela, apesar da presença de plantações de coca, não é uma terra de grande produção em comparação com a Colômbia, o Peru e a Bolívia.
No entanto, a Venezuela é uma rota de trânsito fundamental, entre outras razões, devido à cumplicidade das forças estatais com a indústria do narcotráfico.
O rio Orinoco, que faz fronteira com a Colômbia, é utilizado para remessas que são levadas para o mar aberto em submarinos semissubmersíveis antes de serem carregadas em navios porta-contêineres com bandeiras de países diferentes da Venezuela e com destino à Europa. Além disso, o número de pistas de pouso clandestinas com aviões que decolam para o sul ou para a América Central tem crescido, segundo funcionários de inteligência estrangeiros que falaram sob condição de anonimato. Os rios Guaviare, Inírida e Guainía, por exemplo, conectam áreas produtoras de coca no interior da Colômbia com rotas para a Venezuela.
“Essa rota é muito mais segura, mas mais lenta”, explicou um funcionário da inteligência. “Já recebemos informações sobre um aumento no fluxo pelo rio Negro e também, logicamente, pelo centro do país, que entra pelo Orinoco para descer pelas trilhas clandestinas, e prevê-se mais movimentações”, indica.

Outras rotas conectam com as Guianas e Suriname ou por terra com o Brasil. “A Guiana, aproveitando sua selva e sua condição fluvial muito semelhante à da Colômbia, se tornou hoje o segundo ponto mais importante do narcotráfico, do qual fazem parte os estaleiros de go fast [lanchas rápidas], LPV [tipo de embarcações de baixa potência], submarinos semissubmersíveis e outros artefatos”, afirmou um alto funcionário das forças armadas da Colômbia.
“Toda essa droga que não sai no momento pelo norte do Caribe está sendo concentrada na Guiana para ser levada pelo norte do Atlântico para a Península Ibérica ou para a África”, acrescenta. “A Guiana e o Suriname se tornaram um dos maiores estaleiros de semissubmersíveis e pontos de armazenamento de drogas que saem da Venezuela”, afirma o oficial.
UMA ROTA CADA VEZ MAIS DISPUTADA
Um dos corredores que mais ganhou força na Amazônia é o do Rio Negro, que passa por Puerto Colombia, uma cidade na tríplice fronteira com a Venezuela e o Brasil, e por Maroa, um município venezuelano fronteiriço. Na região operam combatentes do Exército de Libertação Nacional (ELN) e da Frente Acacio Medina da Segunda Marquetalia (SM), uma dissidência das antigas Farc. Esses grupos mantinham uma aliança criminosa que se rompeu no início de agosto, antes do envio de tropas americanas para o Caribe, quando, em Maroa, o ELN atacou o outro grupo, decidido a acabar com seu domínio na zona. Em uma tentativa de obter o controle total da fronteira, o ELN busca fortalecer sua posição em uma zona repleta de mineração ilegal de ouro e minerais críticos, e com rotas de tráfico de drogas cada vez mais estratégicas. Embora antes tivessem evitado escaladas violentas, nessa ocasião houve vários mortos e feridos, e dezenas de indígenas deixaram a região em busca de segurança.
Descendo o rio Negro em direção ao sul, alguns deslocados seguiram a mesma rota usada pelo narcotráfico até o município de São Gabriel da Cachoeira (AM), já no Brasil, por onde a droga entra no país. “Chegaram aqui algumas pessoas deslocadas de Maroa e Puerto Colombia, após o confronto entre o ELN e os dissidentes. São pessoas que têm família aqui”, conta um migrante venezuelano que trabalha como pedreiro em São Gabriel da Cachoeira.
Uma ativista da etnia Curripaco, que mora nos arredores de Puerto Inírida, conta que o mal-estar entre seus conterrâneos também cresce. “Não sabemos como as forças públicas estão lidando com isso, mas os barcos continuam passando carregados de drogas. Principalmente à noite”, diz ela.
Os indígenas dessa região têm sido os mais afetados pela violência dos grupos armados, que disputam a tiros as rotas de distribuição e o domínio territorial. “Nas comunidades há muita preocupação, mas se fala pouco e com medo, porque aqui a ilegalidade está no controle. Os grupos fazem o que querem”, diz a ativista.
Em meados de setembro, em Manaus, a Polícia Federal apreendeu um carregamento com 1,4 tonelada de maconha e 40 kg de cocaína. “Essas lanchas descem o Rio Negro à noite. Na volta, levam daqui a gasolina que usam nas minas para extrair ouro e para trazer a droga da Venezuela”, conta o migrante venezuelano de São Gabriel.

A disputa pelas rotas do tráfico de drogas não traz nada de bom para as comunidades remotas e vulneráveis da Amazônia, muitas das quais já enfrentam problemas de abuso de substâncias ilícitas e aumento da violência.
A CRISE HUMANITÁRIA INVISÍVEL
No final de setembro, autoridades e líderes locais se reuniram em Inírida para abordar questões de segurança e os recentes impactos sobre a sociedade civil. Mas, publicamente, nem as máximas autoridades da região nem as entidades que trabalham na garantia dos direitos humanos se pronunciaram sobre a presença de grupos armados e a violência. Enquanto isso, “há muito tráfico de drogas”, explica uma líder indígena de Guainía, que acrescenta que a guerrilha “desempenha o papel da força pública”.
De acordo com várias fontes consultadas, o governo de Guainía tem ignorado suas responsabilidades de atender à crescente insegurança. “Os órgãos públicos, especialmente o governo do departamento, têm ignorado as dinâmicas de risco que estão ocorrendo em Puerto Colombia e San Felipe”, diz um funcionário do Estado. “O fato de minimizarem essas dinâmicas gera um medo generalizado na comunidade pela falta de respostas do Estado”. Amazon Underworld consultou a Secretaria de Segurança do departamento de Guainía, mas não obteve resposta.
Em Puerto Colombia e áreas circundantes, os atritos entre o ELN e a Segunda Marquetalia causaram uma crise sem precedentes. Um comerciante da cidade foi assassinado enquanto o ELN assumia o controle da comunidade antes sob o poder de Acacio Medina. “Com o ELN não se negocia, com a guerrilha (Segunda Marquetalia) sim”, narra uma fonte do território, alegando que o ELN começou a cobrar extorsões.
Uma situação ainda mais complexa é relatada por uma fonte do outro lado do rio, no município de Maroa, Venezuela. “Eles roubam a comida que os comerciantes trazem para a cidade para vender ou exigem uma quantia em dinheiro. Por isso, os comerciantes vendem os produtos pelo triplo do preço, para recuperar o que lhes foi tirado, e isso nos afeta porque somos nós que compramos aqui. Os pescadores estão sendo afetados porque não podem sair para pescar à noite como antes!”, exclama a mesma fonte. “Eles violam nossos direitos humanos: sequestram, matam, maltratam jovens, há muitos pais sofrendo em silêncio, não podem denunciar nem fazer nada a respeito porque são ameaçados de morte”.
Fontes de segurança e funcionários do Estado relatam que o ELN tenta obter o controle total e há movimentos de tropas de ambos os grupos por todo o departamento de Guainía, na Colômbia, pelo estado de Amazonas, na Venezuela, e confrontos armados até mesmo na fronteira brasileira perto do Pico da Neblina.
Em Guainía, funcionários públicos e líderes de comunidades indígenas já relatam uma crise humanitária. Uma consequência invisível é o confinamento forçado que as comunidades enfrentam desde que eclodiu a violência entre os dois grupos, incluindo civis assassinados e um número desconhecido de deslocados. Líderes indígenas locais denunciam que pelo menos 15 comunidades, aproximadamente 3 mil famílias, foram forçadas a permanecer dentro dos limites de suas comunidades, impossibilitando a caça, a pesca ou o acesso às suas hortas. “No departamento de Guainía, o confinamento é uma estratégia de guerra. Quem controla a população, controla o território”, explica uma fonte do setor de resposta a emergências. “Cerca de 340 famílias dos povos indígenas Curripaco, Puinave e Sikuani permanecem presas pelas dinâmicas do conflito armado. Pelo menos 1.400 pessoas vivem sob restrições que limitam sua mobilidade na zona do Rio Negro, o que representa uma grave ameaça à sobrevivência física e cultural dessas comunidades ancestrais”.
“O medo é constante nas comunidades, que se sentem desprotegidas, excluídas da proteção do Estado e isoladas geograficamente. A viagem até um centro urbano pode levar de três dias a uma semana de navegação ou caminhada. Sem opções de transporte acessíveis e com a ameaça de atores armados organizados, as comunidades ficam presas sem acesso a água potável, alimentos ou serviços de saúde”, relata uma fonte do setor de atendimento a emergências. “O acesso à escola é cada vez mais desafiador para meninas e meninos como consequência das restrições à mobilidade, eles correm cada vez mais riscos relacionados ao recrutamento forçado ou abusos no âmbito do conflito armado”, destaca.
Entre outubro e novembro, chegaram à região ajuda humanitária e assistência de organizações não governamentais para os habitantes de Puerto Colombia, Tabaquen e La Esperanza. Também foram registradas ameaças contra líderes, e os moradores denunciaram o uso e o envolvimento de menores de idade no contexto do conflito e a evasão escolar, devido à situação de violência na zona.
Os confrontos determinarão quem controlará os lucrativos corredores do tráfico de drogas, além das operações de mineração ilegal. “Por aqui, os traficantes se deslocam em motos por trilhas, barcos e voadeiras”, diz a fonte de Maroa. Líderes indígenas colombianos reforçam que, diante dos bombardeios de embarcações no Caribe e no Pacífico, os movimentos dos traficantes de drogas na região aumentaram exponencialmente e mais membros das comunidades locais foram contratados para transportar cargas ilícitas por terra quando as corredeiras impedem que os traficantes cruzem de barco.
Com o preço do ouro em seu máximo histórico e a cocaína encontrando cada vez mais seu caminho pelas rotas amazônicas, a instável região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela vê seus rios dominados por traficantes. Aqueles que habitam essas terras há séculos expressam um único desejo: voltar a ser livres, realizar livremente suas tarefas diárias para o bem-estar e sustento de suas comunidades.
“Para esses povos amazônicos, o rio é sua única forma de sobrevivência; ao fechar o caminho, corta-se sua capacidade de se alimentar e fratura-se suas práticas culturais ancestrais. Essa ruptura não apenas aprofunda a fome, mas destrói a capacidade das comunidades de se protegerem mutuamente, deixando-as em uma situação de extrema vulnerabilidade e indefesa”, conclui a fonte do setor de atendimento a emergências.
*Amazon Underworld consultou aproximadamente 15 fontes na Colômbia, Venezuela e Brasil, pertencentes a comunidades locais, órgãos públicos, setor de ajuda humanitária e emergências, e unidades de inteligência e forças de aplicação da lei. Por motivos de segurança relacionados ao seu trabalho ou residência em áreas de alto risco, ou por solicitações de funcionários públicos por motivos profissionais, as fontes foram anonimizadas..