Na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, o garimpo ilegal de minerais estratégicos, como tântalo, nióbio e elementos de terras raras, alimenta uma economia ilícita transnacional que envolve guerrilhas, grupos armados e redes criminosas. Embora, na Colômbia, a Força Naval da Orinoquia tenha apreendido dúzias de toneladas de “areias negras”, as complexas redes de tráfico e a falta de um arcabouço jurídico sólido impedem a judicialização de extração e do fluxo ilícito desses materiais. A ausência de controle por parte do Estado e as manipulações de licenças de mineração facilitam a lavagem desses minerais, enquanto brechas na lei permitem o surgimento de uma indústria de garimpo ilegal que pode se tornar uma das principais fontes de conflito na região.

O brigadeiro general Rafael Olaya, comandante da Força Naval da Orinoquia, combateu narcotraficantes na costa sudoeste do Pacífico colombiano e participou da chamada mesa de verificação da ambiciosa agenda de paz do presidente Gustavo Petro com o Exército de Libertação Nacional (ELN), o maior grupo guerrilheiro do país. Agora, ele enfrenta um novo adversário: a falta de arcabouços jurídicos que regulamentem a extração e a venda de minerais críticos, o que pode se tornar uma importante fonte de conflito na fronteira entre Colômbia e Venezuela.

“Nós, no território onde estamos apenas como força pública, tentando, com base em todas essas regulamentações, exercer a autoridade, encontramos uma série de lacunas, incluindo a ausência daqueles que deveriam estar regulamentando a mineração na Colômbia”, afirma Olaya de seu gabinete repleto de parafernália militar em Puerto Carreño, cidade que faz fronteira com a Venezuela e capital do departamento colombiano de Vichada.

O sério e experiente oficial da Marinha está a poucos meses de ser promovido a major-general de Infantaria, uma das mais altas patentes da Marinha colombiana. Apesar de sua relutância em admitir, suas forças apreenderam a maior quantidade de “areias negras” da história do país. Sob sua supervisão, a Força Naval da Orinoquia capturou 60 toneladas em apenas alguns meses. Trata-se de pesados ​​sacos de minério contendo estanho, tântalo e terras raras que atravessam as regiões da Orinoquia e da Amazônia do Escudo das Guianas.

“No Ministério de Minas e na Agência Nacional de Mineração, deveríamos prestar mais atenção a essa região porque não se trata do Estado colombiano, e sim de que a questão das terras raras está influenciando conflitos em nível internacional, e o comércio internacional. Estamos falando do maior exportador, que é a China”, enfatiza, referindo-se ao maior produtor e processador de terras raras do mundo.

“Infelizmente, essa fragilidade regulatória é o que nos impede de chegar ao ponto de judicializar o material”, explica o general Olaya, elogiando a qualidade dos concentrados apreendidos: “Estamos constatando que se trata de uma análise de perito, em que o material é de nível tão elevado que só pode ser obtido por meio de exploração industrializada, especializada, o que lhe confere esse grau de pureza.”

O brigadeiro-general Rafael Olaya, comandante da Força Naval da Orinoquia, durante um exercício no rio Orinoco. Foto: Bram Ebus.

No entanto, apesar dos frequentes sobrevoos, a Marinha não consegue localizar os verdadeiros garimpos dentro de seu território. “Mas se você se posicionar ou sobrevoar o território que está sob minha responsabilidade, não vai ver essas crateras, esses danos ambientais que estão ocorrendo, essa escala industrial que a qualidade do material extraído pressupõe, e é muito complicado determinar se realmente estão extraindo o material diretamente do leito dos rios ou se podem estar transferindo de outro país para a Colômbia.”

A resposta está na manipulação de documentos. Para evitar a fiscalização, os minerais de origem ilegal são associados a documentação de licenças de mineração colombianas legítimas, muitas vezes incompletas ou fraudulentas. Com relação a isso, Olaya explica: “Essas licenças também servem para legalizar minerais que vêm de outras regiões e apresentá-los como se estivessem sendo extraídos sob uma licença à qual não correspondem. Só é preciso registrar essas grandes quantidades de material e formalizar.” 

Com frequência, o esquema explora licenças de mineração em pequena escala dentro de reservas indígenas, onde o Estado, inclusive as tropas de Olaya, enfrenta restrições de acesso e não consegue monitorar efetivamente se a exploração está de fato ocorrendo. Um oficial chegou a relatar que, em uma ocasião, perto de Puerto Nariño, no departamento de Vichada, garimpeiros indígenas que se divertiam na margem do rio, dentro de sua área protegida, abaixaram as calças e se expuseram a uma patrulha naval que passava.

Garimpeiros indígenas consultados pela Amazon Underworld, que pediram anonimato, disseram haver vazamento de informações para as redes criminosas que controlam os equipamentos do garimpo: “E antes que isso aconteça, já em Inírida, eles nos avisam com uns cinco dias de antecedência. O governo vai lá, então nós sabemos, e nos dá tempo para guardar, por exemplo, as balsas [de garimpo], todos os materiais com os quais trabalhamos lá. As minas, os tambores, esconder o combustível, tudo”, garante um deles.

Brigadeiro-general Rafael Olaya, comandante da Força Naval da Orinoquia, em uma cerimônia em Puerto Inírida. Foto: Bram Ebus.

Uma balsa do garimpo às margens do rio Inírida. Foto: Bram Ebus.

Esconder o equipamento exige um esforço enorme: “Quando eu estava lá, tive que esconder a balsa quatro vezes. Nós tivemos que cavar uma vala grande, a 500 metros, recolhíamos alguns dias antes da passagem do governo, e íamos fingindo que estávamos plantando mudas, porque elas mal tinham sido colocadas ali.”

Existe uma brecha na lei que é perfeita dentro de um arcabouço jurídico imperfeito e que permite que toneladas de minerais venezuelanos fluam pela Colômbia sob o verniz da legalidade.

Em Amanavén, localidade ribeirinha de Vichada, em frente à cidade venezuelana de San Fernando de Atabapo, um dos principais pontos de partida para os garimpos no Parque Nacional Yapacana, menos de uma dúzia de embarcações estão atracadas. Lojas chamadas “La Cuñada”, “La Cariñosa” e “Las Toninas” vendem produtos básicos e alimentos, mas, segundo a Marinha colombiana, essas casas flutuantes são infraestrutura fundamental onde se armazenam as “areias negras”, um conglomerado de minerais pesados ​​de alto valor econômico e estratégico, essenciais para as tecnologias modernas. Esses minerais podem incluir tântalo, nióbio, estanho, tungstênio e até mesmo elementos de terras raras.

Esse é um dos pontos críticos de coleta de minerais: é cercada de circunstâncias que evidenciam a informalidade do negócio. “Em alguns lugares, encontramos esse tipo de areia. Foram feitas as diferentes apreensões e inspeções quando faltava documentação, e foi entregue às autoridades competentes”, afirma o coronel Higuera, um jovem oficial da Força Naval da Orinoquia, que usava colete à prova de balas e capacete. “É muito provável que aqui, neste momento, haja membros de grupos armados”, acrescenta. Em dezembro de 2024, a Marinha interceptou uma dessas embarcações e apreendeu 13 toneladas de concentrado de areias negras pertencentes à empresa de comercialização de minerais Gracor. Posteriormente, em abril, a juíza geral municipal de Cumaribo, no departamento de Vichada, Ximena Ramírez Zambrano, ordenou a devolução do minério apreendido à Gracor, citando irregularidades no processo, apesar das objeções do Ministério Público e dos argumentos da Marinha.

A Amazon Underworld visitou Amanavén em maio de 2025, com uma equipe da Marinha colombiana, em um ambiente tenso em que moradores locais começaram a filmar e questionar nossa presença ali. O coronel Higuera abordou três venezuelanos nervosos, vestidos de preto em um restaurante da vila, para cumprimentá-los. “Eles colaboram com o ELN, aqueles três ali”, disse Higuera mais tarde, citando a inteligência naval, mas argumentando que não podia agir devido à falta de mandados de prisão.

Uma patrulha da Marinha em Amanavén, em frente a San Fernando de Atabapo, na Venezuela. Foto: Bram Ebus.

Em uma estranha mistura de forças estatais venezuelanas próximas, comerciantes de minerais e a guerrilha colombiana, Amanavén exemplifica a incapacidade de agir contra essa crescente economia ilícita enquanto a legislação não acompanha e as ferramentas jurídicas e técnicas para identificar minerais críticos e terras raras são insuficientes.

O general Olaya estima que aproximadamente 80 toneladas de “areias negras” transitem mensalmente pelos departamentos colombianos de Guainía e Vichada, embora esse número provavelmente subestime os volumes reais. Como ele observou, “eles estão extraindo terras raras a torto e a direito”.

Esses pontos de coleta são deliberadamente posicionados para explorar a natureza porosa da fronteira. Quando as forças estatais venezuelanas ameaçam as atividades do tráfico, os operadores podem transportar rapidamente os minerais à Colômbia pelo rio e vice-versa. Alguns preferem escondê-los nas margens colombianas do rio para evitar o roubo por unidades da Guarda Nacional Venezuelana, cujo envolvimento no comércio ilegal, desde a revenda para ganho pessoal até a associação com grupos armados, está amplamente documentado.

Bem em frente a Amanavén, já em território da Venezuela, estão atracadas várias embarcações equipadas da Guarda Nacional Venezuelana. Em fevereiro de 2025, membros da corporação militar tentaram sequestrar funcionários da Gracor, uma empresa colombiana de comércio de minerais. A equipe pulou na água para evitar a prisão, e mais de 400 kg de “areias negras” foram roubados, segundo um representante da Gracor.

Em centros de coleta em locais como Amanavén, Puerto Inírida e Carlos Lata, os minerais passam por processamento básico e avaliação de qualidade. A Amazon Underworld teve acesso a um vídeo de compradores transferindo minérios de sacos a baldes para pesagem precisa, um processo pensado para evitar fraudes que misturam minerais valiosos com areias escuras de qualidade inferior. Os sacos são sistematicamente marcados com fita colorida para identificar a propriedade, e às vezes são usados espectrômetros ​​para verificar a qualidade do material.

Os grupos armados controlam pontos de trânsito cruciais ao longo das rotas de contrabando, cobrando subornos em locais como Isla Ratón, no lado venezuelano do rio Orinoco, e Carlos Lata, onde opera o ELN. Esses esquemas de extorsão demonstram como os grupos armados monetizam seu controle territorial.

“Em alguns lugares, encontramos esse tipo de areia… quando não há documentação, são feitas verificações e apreensões, e ficam à disposição das autoridades competentes”, diz o coronel Higuera, antes de sair de Amanavén. “É preciso ter cuidado, muito cuidado, porque obviamente eles serão associados a nós (…) Estamos aqui trabalhando para garantir a segurança, mas não podemos baixar a guarda porque, infelizmente, temos a presença de grupos armados na área”, alerta.

Los grupos armados controlan puntos críticos de tránsito a lo largo de rutas de contrabando, cobrando sobornos en lugares como Isla Ratón del lado venezolano del río Orinoco y Carlos Lata, donde opera el ELN. Estos esquemas de extorsión demuestran cómo los grupos armados monetizan su control territorial.

“En algunos lugares hemos encontrado ese tipo de arena… cuando no tienen la documentación se han hecho verificaciones, incautaciones y han sido puestas a disposición de las autoridades competentes”, dice el coronel Higuera, antes de salir de Amanavén. “Hay que tener cuidado, hay que tener mucho cuidado porque obviamente ya los van a relacionar con nosotros (…)  Estamos aquí trabajando para garantizar seguridad, pero no hay que confiarse porque lamentablemente sí tenemos presencia de grupos armados en el área”, advierte.

Clique aqui para ler a reportagem especial completa O preço do progresso: O lado sombrio dos minerais críticos na Amazônia

Pesquisador principal

Bram Ebus

Pesquisadores 

Daniela Castro, María de los Ángeles Ramírez, Emily Costa, Fábio Bispo, Hyury Potter, Isabela Granados, Natalie Barusso.

Capa e Infográficos

Laura Alcina

Mapas

Natalie Barusso