Nas regiões fronteiriças entre Colômbia e Venezuela, desde as zonas áridas e rochosas de savana próximas ao rio Orinoco até as densas e ricas extensões da floresta amazônica, encontram-se alguns dos minerais mais cobiçados da Terra. Sua existência evidencia uma brutal contradição: os minerais críticos essenciais para as tecnologias de energia verde e de defesa são extraídos por meio de operações que destroem comunidades indígenas, afetam ecossistemas vitais e alimentam a violência guerrilheira, enquanto as potências globais competem por esses mesmos recursos para construir o que chamam de futuro sustentável. Aqui, onde comunidades indígenas vivem há milênios, acontece um novo tipo de invasão.

Os minerais críticos estão localizados em territórios indígenas e áreas protegidas

Vastas extensões de território venezuelano rico em minerais críticos e terras raras são controladas por guerrilheiros colombianos. “Eles têm muita gente armada. Controlam tudo, e a mesma coisa continua acontecendo. Só o que mudou foi que agora, a maioria dos indígenas está lá com eles”, diz um jovem indígena venezuelano que chamaremos de Carlos* por razões de segurança. Ele descreve como o Exército de Libertação Nacional (ELN) se apoderou de áreas ricas em coltan, minério de estanho e elementos de terras raras no sudoeste do país. Agora, o ELN está na raiz de um novo surto de mineração. 

A maior parte da extração ocorre nos estados venezuelanos do Amazonas, onde a mineração é proibida por decreto, e Bolívar, até onde se estende a zona de mineração decretada pelo governo em 2016, chamada Arco Mineiro do Orinoco. Embora seja difícil precisar, há um certo consenso de que a extração rudimentar começou há aproximadamente 15 anos no município de Cedeño, perto de um local chamado Morichalito, próximo à região de Parguaza.

O Arco Mineiro do Orinoco

Garimpeiros indígenas vêm extraindo coltan desde o início da década de 2010, levando as pedras clandestinamente para compradores do outro lado da fronteira. “Nós passávamos muito coltan para [Puerto] Carreño [no departamento de Vichada], bem escondido, porque se não, eles nos tiravam”, conta um garimpeiro que chamaremos de Josué*, para proteger sua identidade.

Na entrevista, ele descreve como levavam sacos de pedras até o povoado de “El Burro”, ponto de conexão fundamental entre os estados de Bolívar e Apure e o Orinoco, antes de transportá-los pelo rio, à noite, para a Colômbia, até um assentamento informal nos arredores de Puerto Carreño, chamado “La Rampla”.

A partir de 2010, quando se acelerou a corrida global pelos minerais críticos, os compradores começaram a aparecer e os garimpeiros locais foram desalojados de suas áreas de extração. Carlos e Josué relatam que centenas de combatentes armados do ELN começaram a tomar os garimpos mais produtivos em 2023, trazendo mais trabalhadores para a região.

Quando a guerrilha assumiu o controle, os líderes indígenas foram cooptados, ameaçados e comprados pelas forças irregulares. Aqueles que não queriam trabalhar sob o regime guerrilheiro só podiam continuar clandestinamente, à noite, em garimpos escondidos.

No Amazonas e no noroeste do estado de Bolívar, onde se localiza a maioria dos garimpos de minerais críticos, a Frente José Daniel Pérez Carrero, do ELN, e o grupo Frente Acacio Medina de Segunda Marquetalia, dissidente das FARC, ambos listados como organizações terroristas pelos Estados Unidos, operavam em uma aliança que dividia o território e as minas, enquanto compartilhavam rotas de narcotráfico. 

Uma reunião para discutir esse pacto de não agressão, renegociado no início de 2025, contou com a presença de vários empresários que comercializam minerais críticos. O acordo visava a continuidade do comércio sem interrupções. No entanto, essa aliança de conveniência chegou a um fim brutal em agosto de 2025, quando membros do ELN emboscaram e mataram vários líderes da Frente Acacio Medina, em uma tentativa de assumir o controle total da região fronteiriça rica em recursos.

Desde 2023, as minas sob controle da guerrilha se expandiram rapidamente com a entrada na área de garimpeiros de fora. Os locais afirmam pagar uma certa quantidade de minério (pedras contendo coltan e estanho), geralmente um quilo, para ter acesso às áreas. No meio da floresta, a distâncias que podem levar de três a sete dias de caminhada, os garimpeiros indígenas extraem as rochas enquanto as forças guerrilheiras observam e compradores “chineses” chegam de helicóptero, segundo diversos depoimentos coletados pela Amazon Underworld.

A destruição significativa da floresta e o rápido desmatamento que acompanham as grandes operações preocupam os garimpeiros locais. “Destruíram tudo, destruíram os córregos, construíram um aeroporto, isso aqui está horrível”, descreve um garimpeiro, o mais velho entre aqueles com quem conseguimos conversar.

“Daqui a dois ou três anos, todo esse rio Parguaza vai estar poluído porque muitas máquinas já estão chegando, e máquinas pesadas. Não é o que eu quero. Nós estamos prejudicando o meio ambiente. Trabalhando na terra, nas balsas [de garimpo], a gente prejudica o meio ambiente, polui a água, o ar. Muitos produtos químicos são usados para trabalhar ali. Não é o que eu quero; nunca se sabe o que pode acontecer no futuro”, reflete outro trabalhador, falando devagar e baixo, quase em segredo, apesar de saber que está em território colombiano.

As comunidades locais são as mais afetadas pela extração ilegal dos minerais. Foto: María de los Ángeles Ramirez.

A preocupação vai além da poluição imediata, com consequências de longo prazo para as comunidades locais. “Sim, eu gostaria de dar palestras às crianças sobre isso, porque é a nossa vida, o rio, tudo. Milhares de pessoas se beneficiam desse rio, mas há um caos poluente ali, um rio envenenado”, afirma.

No Amazonas, estado que faz fronteira com Bolívar, a extração de minerais críticos também ocorre em terras indígenas. No território Piaroa, em Manapiare, Autana e no município de Atabapo, balsas fluviais que também extraem ouro procuram e extraem minerais críticos.

Combatentes armados colombianos, compradores brasileiros, “chineses” e forças estatais cúmplices atuam em conjunto para explorar os minerais, mesmo que isso signifique invadir territórios indígenas. A história se repete: matérias-primas valiosas provenientes de terras ancestrais, como foi a borracha no passado e o ouro mais recentemente, estão sendo extraídas por meio de graves e sistemáticas violações dos direitos humanos e redes de comércio ilegal.

“Eu tinha 13 anos quando comecei a trabalhar nisso”, diz uma fonte, referindo-se à extração de minerais críticos. “Tem muitas regras para seguir e, se você não segue, eles te matam”, garante. Tanto no estado do Amazonas quanto no de Bolívar, os grupos armados controlam as áreas de mineração com mão de ferro. Um relatório de 2020 do Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos documentou o trabalho infantil forçado que é praticado nas regiões de garimpo da Venezuela e constatou que essas áreas têm sido palco de assassinatos em massa, desaparecimentos forçados, além de violência sexual.

Grupos guerrilheiros também controlam o trabalho sexual no garimpo. “A guerrilha é que vende as mulheres por ouro”, explicou uma fonte, descrevendo como os grupos armados lucram com a exploração sexual de mulheres.

Garimpeiros e membros da comunidade garantem que os grupos armados controlam até mesmo as vias de acesso, intimidam as pessoas, exigem que elas não levem celulares para os garimpos ou as obrigam a mostrar seus aparelhos para inspeção.

Eles também descrevem torturas, castigos corporais e execuções sumárias. Aqueles que roubam repetidamente enfrentam consequências particularmente brutais. “Pegaram um jovem que já havia roubado três vezes, deram três chances, e ele não soube aproveitar. Chegou uma guerrilheira e mandou ele ajoelhar. Eu cheguei nesse momento e vi ele ajoelhado, com as mãos para trás. Ela deu dois tiros na cabeça dele”, relata uma fonte originária daquele território. Ele afirma que a mulher era membro do ELN.

Outro garimpeiro relatou a existência de prisões improvisadas na floresta, onde os prisioneiros podem ficar sem comida por dias. “Eles têm uma cadeia com arame farpado. Não têm comida nem água porque foram punidos, mas não podemos fazer nada, ou eles também nos colocam lá dentro”, diz ele.

Municípios onde grupos armados colombianos estão presentes

Os grupos armados também recrutam novos membros das comunidades locais, incluindo menores. No estado do Amazonas, um garimpeiro descreveu a forma como foi convocado pelos guerrilheiros. “Quando eu cheguei lá, tinha muitos guerrilheiros, eram mais do que a população indígena, e eles que mandavam”, lembra. Quando lhe pediram que se juntasse a eles, a intervenção do líder indígena local lhe deu tempo. “Eu tive que sair às pressas, sem que ninguém notasse.” Em áreas controladas por dissidentes das FARC, o recrutamento se tornou tão disseminado que, em 2022, uma comunidade inteira do povo Warekena foi embora para evitar que seus jovens fossem levados.

A situação reflete uma tendência global crescente. “Uma ameaça iminente cresce cada vez mais: a corrida por minerais críticos para a transição energética global, muitos dos quais estão localizados dentro ou perto de territórios de povos indígenas”, disse António Guterres, Secretário-Geral da ONU, no início deste ano. “À medida que a demanda aumenta, assistimos a expropriação, exclusão e marginalização nos processos de decisão, e os direitos desses povos são pisoteados e sua saúde, colocada em perigo, tudo isso enquanto lhes são negados os benefícios que merecem.”

Enquanto mais de 8 milhões de venezuelanos fugiram do país devido à profunda crise humanitária, política e econômica, os que permaneceram lutam para sobreviver. Os salários do setor público não passam de algumas dezenas de dólares por mês, e trabalhar no garimpo pode aumentar substancialmente a renda de uma pessoa. Dessa forma, a pobreza se torna a força motriz por trás da indústria da mineração ilegal, levando venezuelanos desesperados a fazer perigosos trabalhos de extração em áreas remotas da floresta, controladas por grupos armados.

“O salário mínimo é três dólares. E o bônus que eles dão é 100 dólares”, explica um professor indígena. “Num dia em que eu consigo extrair oito quilos [de pedras contendo minerais críticos], eu ultrapasso esse valor, e é suficiente para me sustentar. A comida deixa de ser um problema porque há bastante pedra, claro, quando se consegue. Mas eu não me sinto humilhado fazendo isso como eu me sentia em Puerto Ayacucho”, diz ele, referindo-se à capital do estado do Amazonas.

“O que eu vou fazer ganhando num mês o que eu posso ganhar num dia? Com isso a gente consegue se sustentar por vários dias. Eu fico pelo menos duas semanas e depois volto para visitar a minha família. O meu pai é professor e não tem suficiente para comer; com o salário que ele recebe, ele só come três dias. Ele é sozinho, está sem os filhos, e nós somos seis”, diz outro garimpeiro.

No entanto, a maioria dos garimpeiros locais e indígenas desconhece o verdadeiro valor do que está extraindo. Eles recebem cerca de US$ 10 por quilo, como se estivessem pagando por ovos enquanto obtêm caviar.

Grupos armados obtêm renda do garimpo ilegal de diversas maneiras. As operações são “tributadas”, o que significa que uma parte da produção é destinada a grupos armados não estatais, ou eles a controlam diretamente e, portanto, têm a propriedade do produto do garimpo, ou ainda, negociam em nome de outros compradores que adquirem o minério diretamente.

Mas a expropriação dos venezuelanos não para por aí. Tanto as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB) quanto a Guarda Nacional Bolivariana (GNB), longe de garantir a soberania e a integridade territorial do Estado, a ordem interna, a proteção das fronteiras ou a segurança cidadã e ambiental diante desses grupos armados estrangeiros, vigiam o acesso de terceiros às minas e cobram suborno, segundo diversas fontes. Isso ocorre em postos de controle de estradas locais ou perto dos garimpos. “Há postos de controle na entrada das minas. Ninguém sai por ali, só eles, que concordam com o que está acontecendo na Venezuela”, afirma um garimpeiro da região.

Clique aqui para ler a reportagem especial completa O preço do progresso: O lado sombrio dos minerais críticos na Amazônia

Pesquisador principal

Bram Ebus

Pesquisadores

Daniela Castro, María de los Ángeles Ramírez, Emily Costa, Fábio Bispo, Hyury Potter, Isabela Granados, Natalie Barusso.

Capa e Infográficos

Laura Alcina

Mapas

Natalie Barusso